Gandembel
A Guerra Colonial marcou muitos milhares de pessoas. Não só portugueses.
Em termos históricos ainda não terá passado o tempo suficiente para a debater com isenção.
Não quero aqui fazer qualquer juízo de valor, mas apenas partilhar um texto e uma foto que apanhei na net.
Gosto de ouvir as estórias dos soldados que combateram nas ex-colónias, sendo que a maior parte deles o fez contra a sua vontade. Acho que o país lhes deve, no mínimo, um agradecimento pelos anos perdidos e pelos sacrifícios passados.
Os relatos na primeira pessoa contados por muitos ex-combetentes será uma forma de perpétuar o que passaram, assim como um contributo para que as gerações mais novas de que faço parte, conheçam a sua história. Como se diz no excerto, muito do que se passou nesses tempos difíceis seria assunto para muitos livros e muitos filmes.

Guiné 1968
Região de Tombali - Gandembel CCAÇ 2317
Início da construção do aquartelamento
«As grandes fotografias dispensam legendas. Esta é uma das fotos-ícones da guerra da Guiné. Tem uma tremenda força dramática! Está lá tudo: o homem-toupeira, o homem de nervos de aço de Gandembel/Balana, também tinha alma de poeta e sabia transformar a pá do trolha em viola de baladeiro, ou guitarra de fadista! Estamos lá todos nesta fotografia de um camarada, sozinho, no palco da guerra, no cu do mundo, enrodilhado num manta, dedilhando a sua viola ou a sua guitarra e cantando para um público imaginário as suas alegrias, as suas tristezas, a sua coragem, a sua solidão, a sua saudade, as suas esperança, os seus medos, os seus sonhos...
Trata-se do nosso camarada Idálio Reis, na altura Alf Mil da CCAÇ 2317... Podemos imaginá-lo no intervalo de um dos 372 ataques e flagelações a que os nossos camaradas foram submetidos, entre 8 de Abril de 1968 até 28 de Janeiro de 1969, os nove meses em que, em tempo-recorde, construiram de raíz um aquartelamento, defenderam-no galharda e heroicamente e receberam ordens para o abandonar!... Um verdadeiro Suplício de Sísifo!... Noutro país, esta epopeia teria dado um grande filme, um grande livro, uma grande exposição fotográfica!... Gandembel, quer se queira ou não, faz parte da nossa história, dos portugueses e dos guineenses... É bom invoca-la para que não ouçamos amanhã a resposta dos nossos filhos e netos: Gandembel? Não, nunca ouvi falar...»
Retirado daqui
Gostava de vos falar dos esquecidos, dos heróis que a história não narra, que as viúvas choraram mas já não recordam, daqueles que nem tempo tiveram de ter filhos que os amassem, descendentes que os lembrassem, daqueles que nunca tiveram o dia do pai, vítimas de guerras que não inventaram, em tempo que já lá vai; falar deles é prevenir, se bem que de nada lhes valha, de guerras que possam vir, geradas pela ambição dos que nunca morrerão num campo de batalha. josema <s/d nem local, possivelmente escrito em Mampatá, no sul da Guiné,
ResponderEliminarEstive na Guiné em 66 e 67 com o meu pai militar de carreira que tinha sido mobilizado. Natais passados no Hospital Militar em Bissau onde o meu pai estava colocado e onde as famílias nos reuniamos para confraternizarmos essa data e quantas vezes os festejos eram interrompidos ~porque o helicóptero chegava cheio de feridos do mato. E quntos homens duros vi a chorar e quantos médicos , (de um deles lembro-me o nome, era o Dr Garcia um cirurgião que chegava a operar horas infinitas,) vi desesperados porque se sentiam impotentes para salvar a vida dos camarads. Por isso este post e esta foto calou bem fundo em mim. Por isso eu publiquei este poema, para lembrar que as guerras ~ceifam vidas e quando as não ceifam, deixam estropiados fisica e psicológicamente
Dª Antonieta,
ResponderEliminarDesconhecia essa sua vivência ultramarina. Guardará certamente muitas memórias de episódios de uma época sobre a qual ainda há algum pudor em debater, nomeadamente no que diz respeito aos abusos realizados assim como sobre os danos que ainda permanecem na nossa sociedade.
Enquanto Porto de Mós, cada vez mais pujante, viçosa e bela, tem no rio Lena a fonte
ResponderEliminarpara seu debate, Gandembel teve uma vida muito efémera, pejada de angústias, medos e
pesadelos, dor, sofrimento e morte.
De Abril de 1968 a Janeiro de 1969. Vivi todos esses dias, na companhia de um grupo de
homens, fortes e indómitos, que alguns deles não resistiram, porque caíram em combate
ou por outros com mazelas que os obrigaram a desistir.
Pediram-me para escrever sobre essas vivências, e o Luís Graça de uma das minhas fotos,
pendurou-a no galarim do Blogue.
Mas satisfaz-me que outra gente que não viveu essa guerra, muito difícil de explicar
porque quase incompreensível, dado que foi besta muito pungente na sua subjectividade.
Gandembel, tinha que enegrecer um dia por maior força do outro beligerante. E se um dia,
passar pelos restos muito carcomidos daquele torrão, só um elemento-Natureza lhe
propiciará um sorriso, que é o rio onde íamos à água, que em Março levará muito pouco
caudal, pois a estação das chuvas ainda não chegou. Mas, indubitavelmente, é mais belo
que o Lena que seduz os leirienses.
Mas também este rio tem uma quota-parte na minha vida, já que foi em Leiria que acabei
então o 7.º ano e cumpri uma pequeníssima parte do serviço militar no RI 7.
Se precisar de alguns esclarecimentos, sempre disponível.
Festas Felizes e um novo Ano pleno de felicidades.
Em 2009, muito possivelmente darei um pulo aos meus sítios da Guiné, graças ao empenho
que um colega que lá trabalha, me vem acicatando.
Cumprimentos. Idálio Reis.