A claque
Gosto de acreditar que a sequência das gerações é uma contínua passagem de testemunho, de mão em mão, de pais para filhos ao longo da existência da raça humana, como se de um segredo se tratasse.
Como na corrida de estafetas, a cada atletas é exigido que receba o testemunho, que faça a sua corrida e que se encarregue de o voltar a entregar em condições ao atleta seguinte.
Basta olharmos para o lado, ou quem sabe para o espelho, para ver que muitos de nós andamos tão envolvidos a correr que nem uns loucos que descuramos a passagem do testemunho. Talvez para alguns o testemunho tenha sido recebido em condições deficientes, o que exigiu um esforço adicional para entrar na corrida, mas o que depende realmente de cada um de nós é entrega e não a recepção.
Digo disto referindo-me à importancia do relacionamento com os filhos, mas também à responsabilidade de transportar uma verdade que vem do passado. O esforço e a atitude dos nossos antepassados, muito ou pouco distantes, em sobreviver, em criar os filhos, com mais ou menos facilidade, com mais ou menos conforto e com mais ou menos ambição, está agora nas nossas mãos. É nas nossas decisões e atitudes no presente que esse esforço distante agora se consubstancia. É nas nossas vitórias e derrotas diárias, que hoje tomam forma as dificuldades e os sacrifícios longinquos.
Pela nossa memória e pelos relatos que ouvimos, conhecemos apenas três ou quatro gerações anteriores à nossa. Das mais distantes, constituidas por um conjunto indefinido de pessoas, sabemos apenas que viveram as crises e as conquistas do seu tempo e que terão sido bem sudedidos na geração de descendência. Ainda assim, gosto de imaginar que, a ver pelos que conheci, esse grupo indistinto de desconhecidos que me precedeu seria na sua maioria gente de bem, digna e honesta. Ainda assim a probabilidade aponta para que ao longo dessa longa fila de atletas da estafeta familiar, nem todos se regulasseam pelos mesmos standards comportamentais, mas a vida é assim mesmo e o dia de hoje está na nossa mão.
É interessante imaginar-me a defender decisões tomadas perante uma assembleia imaginária de antepassados. Imagino-os exigentes e expectantes. Outras vezes condescendentes e compreensivos. Normalmente esforço-me por satisfazer aquilo que considero ser as suas preferências.
Gosto também de imaginar que são uma claque silenciosa que me apoia nos desafios difíceis.
Está feita a minha quarta Maratona completa com o meu segundo melhor tempo de sempre, 4h02, com 2h01 à passagem na meia maratona. Só por ter chegado ao fim sabe a vitória. Quem já fez uma maratona sabe bem disso.
ResponderEliminarComo em todas as provas de resistência, o estado de espírito ao longo da prova varia entre a tremenda satisfação e o esforço doloroso.
O público, com especial relevo para um numeroso grupo de apoio aos atletas franceses, distribuiu-se ao longo de toda a extensão da prova e cativou até à assistência portuguesa, normalmente quase indiferente ao evento. A interacção com os atletas com aplausos e incentivos, especialmente durante a segunda metade da prova, é algo inspirador. As bandas musicais distribuídas ao longo do percurso também animam a corrida.
Durante quatro horas, para alguns bem menos, cada participante é um membro de pleno direito desta tribo, perdoem-me a imodéstia, de gente corajosa, que deixa o sofá e faz-se à estrada, e onde passo a passo desafia o razoável. Para muitos não passam de um bando de loucos mas o retorno emocional é de facto enorme.
Os estrangeiros que mês após mês correm o circuito mundial das maratonas, preenchem uma percentagem interessante dos participantes, com especial destaque de mais de dez japoneses (e japonesas) de Nagazaki, todos sexagenários, que atravessaram o globo para ali estar presentes. Desta forma conheceram a cidade do Porto num dia outonal em que o tempo esteve excelente para um passeio à beira rio. O percurso começa na Rua Júlio Dinis, faz toda a Av da Boavista, passa pela baixa portuense, por toda a frente ribeirinha de Gaia até à Afurada e regressa, passando por locais emblemáticos como a Alfândega, a Ponte de D.Luis, os estaleiros tradicionais de Gaia, a Ponte do Freixo, terminando no parque da cidade. Nos últimos metros não se consegue ficar indiferente aos incentivos vindos de campeões como Carlos Lopes e Aurora Cunha que uma vez mais esperaram cada um dos participantes até ao último.
À chegada as reacções à são muito diversas. Há quem passe a meta com indiferença, quem chore, quem diga palavrões, quem ainda consiga correr até à zona de massagens ou coma como se não houvesse amanhã. A maior parte despede-se até à próxima. Apesar de se chegar a amaldiçoar o momento da inscrição, quem ousa experimentar mais tarde ou mais cedo regressa à estrada. Até à próxima.