Como 'empurrar' a realidade para dentro do modelo?
Segundo as teoria Keynesianas, que regulam a economia há décadas, a forma de estimular o crescimento da actividade económica recorrendo à política monetária consiste na intervenção do Banco Central no mercado monetário injectando liquidez. Assim, tornando o dinheiro menos escasso as taxas de juro baixam e o investimento aumenta.
Alguns Bancos Centrais ainda têm espaço para descer as taxas, como é o caso do BCE, enquanto outros já praticamente esgotaram o instrumento taxas de juro, como é o caso da Reserva Federal Americana.
Acontece que estamos a assistir a um fenómeno que distorce o efeito pretendido.
Os bancos comerciais encontram-se numa situação delicada, não só mas também devido ao crescente volume de incumprimentos. A forma que estes têm para ‘criar reservas’ e assim suportar as perdas previsíveis, passa por aumentarem os spreads da operações activas, ou seja as suas margens de lucro.
Um exemplo. A Euribor a 3 meses estava em Setembro passado a rondar os 5%. Uma empresa conseguia um crédito de curto prazo a Euribor 3M + 2,5%, quer dizer que a operação lhe custava 7,5%. Actualmente com o mesmo referencial (Euribor 3M) nos 2%, a mesma empresa dificilmente consegue fazer a mesma operação com um spread inferior a 4%, 5% ou ainda mais. O que quer dizer que lhe irá custar sensivelmente o mesmo.
Desta forma o efeito de redução de taxa de juro no mercado monetário é totalmente distorcido pelas politicas de preços da banca comercial.
Keynes, um especialista, ou melhor O especialista, em macroeconomia, não terá previsto esta questão que resulta de uma esfera micro.
Como se pode sair disto? Será que existe alguma alternativa a uma intervenção pública na politica comercial dos bancos? Quem me conhece, e muito menos eu, não me imaginava a defender uma intervenção do estado nas decisões das empresas, mas não estou a ver outra alternativa para se conseguir ‘empurrar’ a economia para dentro do modelo com que sabemos lidar. O estado, nomeadamente o português, não se preocupa nada em intervir a este ou a outros níveis, mas como sempre na nossa história só chegaremos a esse ponto depois de outros o fazerem primeiro.
PS: Se alguém conhecer uma alternativa a este pesadelo, em que saberemos como entramos mas não como sairemos dele, que nos informe. E já agora que seja rápido.
O problema é esse mesmo. Não há alternativa.
ResponderEliminarAquilo a que estávamos habituados e com que se sabiams lidar, não resulta mais. E apartir de meados de 2009 a situação será muito pior.
Teremos que aprender e reformular tudo.
Os próprios EUA serão um pólo catalizador para a mudança e a UE e o próprio sistema monetário encontrará muita dificuldade em encontrar soluções.
Não será uma fase melhor ou pior, mas poderá ter a certeza que será diferente, muito diferente.
A Cimeira de Davos não conseguiu dar sinais positivos ao mundo.
Obama terá que ser um preconizador de cenários diferentes e quando se analisar a situação á luz de conceitos económicos, completamente novos, integrados em filosofias humanistas , aí rápidamente
as soluções seráo encontradas.
È um mundo novo, uma nova era e uma nova ordem mundial.
Os valores ambientais, o respeito pelo Planeta, a economia menos consumista, a menor dependência do petróleo, o desenvolvimento das energias alternativas e uma indústria muito menos poluente darão o mote.
O desenvolvimento da consciência do Eu a nível individual e colectivo acompanhará uma nova energia no planeta com a redestribuição das águas e a inclinação já conhecida do eixo axial..
As mudanças têm sempre um preço. Não há parto sem dor e este vai ser um pouco doloroso e algo demorado.
Obama escreveu a "Audácia de ter Esperança.
Não terá sido por acaso. De tempos a tempos, aparevcem homens assim na Humanidade.
Meu caro Paulo,
ResponderEliminarNão sei qual é a alternativa, nem sei se existe, mas penso que para um problema Global a comunidade Internacional e a UE em particular têm de "arquitectar" uma solução Global, mais uma razão para eu ser Federalista.O proteccionismo Francês e demais países,pode atrasar soluções quer a nível económico quer a nível financeiro.
A tentação do proteccionismo não é exclusivamente francesa. A última Economist fala disso mesmo. Até o plano Obama tem algumas medidas desta natureza.
EliminarQuestiono as vantagens do federalismo, no actual cenário não é viável avançar com reformas a esse nível. Manter as actuais instituições a funcionar será um grande desafio.
Viste o excerto que copiei do Público sobre a crise política na UE?
Tu como eu à partida não somos contra nada em termos teóricos, gostamos é que nos sejam exlicadas as coisas para podermos avaliar, daí que o silêncio seja para nós incompeensivel em determinadas áreas e sectores, não entendo o tabu dos politicos em relação ao Federalismo como em muitas outras coisas.
EliminarO neo liberalismo não é bem a mesma coisa que o liberalismo. Há, evidentemente, continuidade, mas também existem muitas diferenças. O neo liberalismo apagou o papel do Estado como possível regulador em caso de crise. Esta politica inaugurada por Reagan e Tatcher teve a benção dos sociais demacratas.( ps ou psd ). Veja-se que Blair nada mais fez que continuar a política de Tatcher.
ResponderEliminarPor outro lado, os grupos de esquerda ou alter-mondialistas, pensando o neo liberalismo como a continuidade do capitalismo do início do século, não criaram qualquer conceito novo capaz de compreender os novos dados.
Sarkozy acaba de desbloquear quantias colossais para "salvar" Pegeot-Citroen. Para que não hajam despedimentos. E não é que o director desta multinacional agradece e anuncia despedimentos. Parece que foi convocado pelo Eliseu.
Sarkozy é um neo liberal. Mas creio que nunca pensou ou calculou este cenário.
E,por outro lado, tem no seio do seu partido a velha guarda Gaulliste que lhe faz frente. Por isso, a sua reforma, quanto à autorização a trabalhar aos domingos, foi chumbada na assembleia por essa mesma velha guarda. Velha guarda que defende o papel do Estado .
Eu sou por uma Europa Federativa ! Uma Europa Política ! Mas o hic hoje, quanto a mim, é precisamente porque esta não existe. E, também, como aqui já escrevi, a eleição de Sarkozy não foi um mais para a Europa.
Mas não foi Tachter quem tudo fez para que a Europa Política não existisse ? E Durão Barroso não teve a mesma política ? Quem pedia e pede sempre menos estado ?
Os liberais ? Não ! Os neo liberais ? Sim !
Um bom colega e companheiro, Pierre Dardot, acaba de publicar, a 20 de Janeiro deste ano , um ensaio muito interessante : "La nouvelle Raison", Pierre Dardot et Christian Laval, ed. La Découverte.
Para quem entende Francês, podem ouvir em www.dailymotion.com/video/x875j2_entretien-avec-pierre-dardot-et-chr_news um resumo da obra .
E Viva o Porto !
Gostei da apresentação do livro e coloquei-o na leitura em curso. Pena que não esteja à venda por cá.
EliminarO Estado de direito é claro. É preciso ler, quando escrevo Estado, ler Estado de direito.
ResponderEliminarA luta do neo liberalismo é mesmo essa ideia de poder destruir o Estado de direito. Coisa que não existia no liberalismo. Daí, talvez, a desobediência passiva ou arrogante dos dirigentes bancários.
E Viva o Porto !
Caro Portomaravilha,
EliminarÉ sempre um prazer tê-lo connosco, especialmente nestes textos pouco comentados.
Há alguns anos que o termo neo-liberalista deixou de ser um substantivo e tornou-se um adjectivo. Oiço lideres partidários, como diz e bem, alter-mundistas a acusar este ou aquele de ser um neo-liberalista. Recorre-se a esta palavra quase a título de ofensa.
Baseando-me no pouco que conheço da história portuguesa do sec. XIX apetece-me muitas vezes chamar também a esses lideres partidários, neo-miguelistas ou neo-absolutistas.
Keynes, um génio da ciência 'menor' que é a economia, sem criar ideologias influenciou as políticas económicas e os políticos do sec.XX no mundo ocidental e levou a que se atingisse o nível de qualidade de vida inédito para massas tão grandes de população.
O crescimento foi totalmente equilibrado? Não foi! Mas permitiu que hoje falemos com um referêncial de qualidade de vida impossível há 80 ou 90 anos. Durante este período de tempo a intervenção do Estado na economia e na sociedade sofreu variações e foi diferente de país para país. Durante esse mesmo período de tempo assisitiu-se à experiência comunista onde o Estado, de cinco em cinco anos, determinava tudo o que se iria produzir, até minimo detalhe. Sabia-se quantos parafusos de cabeça oval e acabamento niquelado seriam necessários. Nada era deixado ao lívre-arbitrio. Não existia espaço para a competição entre empresas, nem para a livre criatividade para os artistas e para os intelectuais. O Estado tudo controlava.
Quando este modelo ruiu (note-se que ao contrário do que aconteceu por exemplo à civilização Inca, não foi nenhum Pizarro que derrubou o comunismo, foi o modelo em si que ruiu) existiam todas as condições para que se explorasse as propostas do extremo oposto. O neo-liberalismo dos final do sec XX surge neste enquadramento.
Está a vista que faltou supervisão à coisa. Mesmo em países com governos socialistas, amigos do Estado interventor, verificaram-se falhas de supervisão. E não falo de activos tóxicos nem de sub-prime, falo por exemplo dos casos BCP, BPN e BPP (e espero ser idiota acrescentar, até ver). Enquando a coisa vai rolando os governos são levados a deixar a coisa correr. Sem ruídos não há contestação e siga à marcha.
Assim, há culpados para todos os gostos, para uns são os neo-liberais movidos pela ambição (acusações que me fazem lembrar os priores da linha dura salazarista, até porque ganhar dinheiro é pecado), para outros são os governos irresponsáveis que temem o grande capital e querem mesmo é depois de terminar os mandatos mudarem-se para as administrações das empresas privadas. Temos um caso caricato em Portugal, do agora doutor Armando Vara que deixou a CGD como caixa e após uns anos, depois de passar pela vida política regressou ao mesmo banco como administrador. As coisas correm bem, o povo é sereno, e siga para bingo. Não se passa nada. Se alguma coisa correr mal a culpa é dos neo-liberais, esses sacanas gananciosos.
Temo que caminhemos para uma ruptura dos modelos. Se a crise se instalar de mala e bagagens no mundo ocidental, que está habituado a um elevado nível de vida, todos os sectores da sociedade têm um ou mais culpados de estimação. Nesse cenário de pesadelo os políticos actuais poderão não ser capazes de fazer valer a sua autoridade a não ser pela força e para isso terão de conseguir controlar a força.
Mas regressando ao tema inicial. Não me sinto um neo-liberal. Acredito na livre iniciativa e também que a capacidade criativa dos cidadãos é altamente potênciada pela liberdade de expressão a todos os níveis. Incomoda-me o paternalismo estadista que trata os cidadãos como incapazes de decidir sobre a sua vida. Não podemos escolher o esquema de reforma que entendermos nem podemos escolher a escola dos nossos filhos.
Apesar de tudo isso, questiono-me sobre que soluções poderão existir para a saída da actual crise sem que se controlem algumas variáveis que normalmente não dependem do Estado.
Mais uma vez obrigado pela participação.
Caro Paulo Sousa, Pierre Dardot está disposto a dar uma entrevista via e-mail para o seu blog. Resposta a sete ou oito perguntas que devem elaborar e às quais ele tentará responder. Eu traduzirei ( ou tenterei ). Em pano de fundo ( no final do texto ) deverão existir sempre as suas ( ou dele) respostas em Francês. Isto para evitar as críticas linguísticas dos "engraçadinho/a/s que nada produzem ou traduzem.
ResponderEliminarSe lhe interessa, será com prazer que tal se fará !
Que seja claro : Não tenho partido político, nada a vender nem nada a propor.
E Viva o Porto !
( se tiver tempo voltarei logo para comentar a sua resposta )
Caro Portomaravilha,
EliminarÉ um privilégio poder dispor da participação de Pierre Dardot no Vila Forte. Naturalmente que da nossa parte temos todo o interesse em poder colocar-lhe algumas questões sobre a matéria em debate.
Conto poder durante o fim de semana poder preparar o assunto. Pode contactar-me pelo email pmms@iol.pt para lhe poder enviar as questões de volta.
Um grande obrigado.
«A queda das moedas das principais economias do Leste Europeu acentuou-se, ameaçando estes países com uma espiral semelhante à vivida pela Islândia, mas com um efeito potencial de contágio muito maior para a zona euro, incluindo Portugal.
ResponderEliminarO forint húngaro caiu 2,2 por cento face ao euro e registou um novo mínimo histórico. O zloty, a divisa polaca, caiu para um novo mínimo de cinco anos face ao euro, acumulando já uma perda de 36,8 por cento durante os últimos doze meses. E a coroa checa perdeu 2,2 por cento do seu valor para o euro, ficando no mínimo dos últimos cinco anos.
As divisas destes países do Leste europeu parecem cada vez mais frágeis, penalizadas pelo forte abrandamento das economias, o desequilíbrio externo acumulado ao longo dos anos, o elevado nível de endividamento dos agentes económicos em moeda estrangeira e a incapacidade dos respectivos governos para, sozinhos, enfrentarem estas pressões dos mercados. Um cenário que, embora de forma menos grave, faz recordar a espiral de depreciação da divisa em que entrou a Islândia em Setembro do ano passado.
Como afirmava ontem na edição on-line do Financial Times uma analista do Commerzbank, "a capacidade dos bancos, empresas e particulares para fazer face aos empréstimos contraídos deteriora-se a cada depreciação das moedas, o que por sua vez reduz ainda mais a confiança nas divisas do Leste europeu".»
Público, hoje