E a crise continua...

 


Passou despercebido, sem que a comunicação social lhe tivesse dado particular atenção, um desabafo do Ministro (da Economia e das Finanças, não sei em que qualidade nem é isso que importa), que transmitia um sinal de impotência no combate à crise. “As políticas não estão a conseguir combater a crise” – era o desabafo!


 


Não importa agora especular sobre as razões pelas quais este desabafo ficou “escondido” e foi ignorado, pelo menos até ao momento em que escrevo, pelos media. Não importa especular mas importa salientá-lo. Porque não deixa de ser estranho. Nem tão pouco se seria possível ouvi-lo da boca do seu antecessor na pasta da Economia, o tal que decretara, por mais de uma vez, o final da crise. Não, o assunto é sério!


 


Temos assistido, por cá e por todo o lado, a sucessivas tentativas de fazer passar a mensagem de que a crise já tinha batido no fundo e que já entráramos na recuperação. A vontade e a necessidade de acreditar nisso é de tal ordem que se sucederam as mais alucinantes miragens. E, como no desespero da imensidão do deserto, essas miragens apenas fazem crescer o desespero.


 


A primeira estilizava o mercado de capitais. Que, durante mais de metade do segundo trimestre, revelava sinais positivos. E logo muitos economistas, entre os quais eu próprio, confesso, lembravam uma velha regra: a retoma dos mercados financeiros antecipa, entre 6 e 12 meses, a da economia. Portanto ela aí vinha!


 


Depois era a retoma da economia americana. Era claro o efeito Obama também na economia e, em 2010, o motor da economia mundial aí estaria a roncar, com toda a sua potência. Até a GM saía de falência em apenas um mês!


 


Os sistemas financeiros estavam recuperados e tudo voltaria a ser como dantes. Nada mais falso. Não estavam, nem estão. Apenas aproveitaram como analgésicos os largos milhões nele injectados por todo o mundo. Porque, para a economia, nada passaram.


 


Mais um grande banco americano (o CIT – não, não é o Citi Bank – um banco destinado ao financiamento da economia real, das PME americanas) está prestes a falir, sem que ninguém lhe acuda. O preço do barril de petróleo – que voltaria a subir com a animação dos mercados bolsistas, não em função da realidade da procura mas apenas por influência dos agentes não comerciais – os especuladores – poderá cair, na opinião de alguns especialistas, para os 20 dólares no próximo ano. É uma opinião que vale o que vale – não acredito também nessa miragem paradisíaca (porque se trata da uma comoditie de grande volatilidade geo-estratégica, com uma procura muito rígida e uma oferta cartelizada, e, “the last not the least”, porque a maioria da exploração é inviável àquela cotação, o que logo faria baixar a produção … que corrigiria esse preço) – e, o que vale, é que não se acredita na retoma, sem a qual não há consumo, também de petróleo.


 


 Então por que se deixou de acreditar na retoma? Porque, como desabafava o nosso ministro, as políticas não conseguem ser eficazes!


 


E a verdade é esta: se estas políticas não o conseguiram até aqui, não há muitas razões para acreditar que o consigam daqui para a frente. Porque o aumento do desemprego continuará a travar o consumo. Logo, a capacidade instalada das empresas por utilizar não parará de crescer. Logo, não haverá investimento das empresas. Porque o endividamento de famílias e empresas é grande. Logo, a prioridade é poupar e amortizar dívidas, nunca investir ou consumir. Porque os estímulos orçamentais dificilmente se poderão manter. As intervenções dos estados levaram-nos a esgotar já muitos dos seus recursos, gerando défices estruturais e níveis de endividamento que dificilmente poderão continuar a crescer.


 


 

Comentários

  1. Aquilo que sinto no terreno é que os stocks terminaram, entretanto é preciso produzir,em encomendas mais pequenas,ninguém quer ter stocks, os fornecedores não têm matéria prima para entrega imediata como antes, as fábricas que fecharam deixaram alguns clientes "enrascados" e as que vão sobrevivendo, têm que ser mais flexiveis por causa dos prazos e encomendas mais pequenas.Isto requer uma ginástica interna grande, mudança de paradigmas de gestão financeira, compras e industrial/produção.As que vão sobrevivendo, estão a levar com as produções que estavam em empresas que entretanto fecharam e os niveis de facturação estão a ser idênticos a 2008 (nosso caso), com o beneficio das matérias primas estarem mais baratas. Isto é o lado "bom", o lado mau é que a economia não está, e não sei quando vai estar, a crescer por forma a criar novos postos de trabalho e o surgimento de novas empresas e sem consumidores não vai ser fácil o "comboio" arrancar.

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    1. Pois é Pedro. Há sempre um lado bom da crise ...mas sempre apenas para alguns. Todas as ameaças comportam algumas oportunidades. Mas essas são as andorinhas que não fazem a Primavera.
      O resto é Gestão. Rigorosa e exigente em permanência e não apenas em tempo de vacas magras. Flexibilidade, just in time ", rigor na eliminação de desperdícios e controlo financeiro são princípios de gestão "tout court". Valem sempre, é neles que assenta a produtividade global, não valem só para enfrentar crises. Aí são apenas vitais! Fazem a diferença entre a morte e a sobrevivência. Nem só de despedimentos de faz o combate à crise, ao contrário do que muitos julgam!

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  2. O que o Sr Eduardo Louro diz é tudo verdade, no entanto, há sempre uns "entantos", o que tem acontecido é que quer as empresas produtoras quer as distribuidoras deixaram de fazer stocks como o Pedro diz e bem, só que precisam de vender e quando fazem orçamentos dão prazos curtos, que seriam normais se tivessem stock, mas são irreais porque ainda os vão ter que fabricar ou encomendar à fábrica, porque se fossem verdadeiros os potenciais clientes iriam procurar outro fornecedor que lhes fizesse um prazo mais curto, e há sempre alguém que diz que faz em menos tempo e mais barato, pode é estar a mentir, e depois todas as teorias do "just-in-time ", gestões rigorosas, etc. , vão por água abaixo.
    Nesta fase de desconfiança no mercado, esta prática corrente gera atrasos nas entregas, atrasos nos acabamentos de obras/produtos, atrasos nos recebimentos, que no limite pode levar a despedimentos e falências.
    Agora nesta cadeia quem é o pior gestor, o que quer vender, sabendo que se for verdadeiro deixa de vender o que o pode levar a falir ou o que encomendou o produto, que na relação preço/qualidade/prazo fez a melhor opção?

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    1. Sr Jorge Oliveira,

      O seu comentário é oportuno e faz todo o sentido. Mas aplica-se a actividades que operam na lógica da encomenda. A produção por encomenda é aplicada em alguns sectores de actividade - uma parte do todo. Tem aplicação na produção e distribuição de grande parte de bens de investimento. Mas já não a tem na maior fatia da actividade económica, a que se dedica a bens de consumo. Aí, meu caro Jorge Oliveira, planeamento, marketing e distribuição rimam com rigor de gestão.

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