Programas ou promessas?

Vou imitar o Pedro Oliveira (no seu post da semana passada sobre as propostas de revisão constitucional, de resto ontem levadas à Assembleia Regional da Madeira nas circunstâncias que se conhecem), agora que vai de férias, para começar por dizer que acho que vou ser polémico. Pelo menos por aqui!


 


A Presidente do PSD disse ontem, confrontada com a acusação de estar a pedir aos portugueses um cheque em branco nas próximas legislativas (pelo facto de não apresentar propostas eleitorais), uma coisa extraordinária. Mais ou menos isto: os programas, os manifestos e os projectos mais não são do que listas de promessas para não cumprir; apresentá-los é que é pedir um cheque em branco ao eleitorado.


 


Ora bem. Isto até poderá render eleitoralmente. Todos estamos fartos das promessas eleitorais sucessivamente incumpridas. Todos sabemos que ainda não se não chegou, em Portugal, à saudável e desejável punição democrática desses incumprimentos. Quando em Portugal o poder muda de mãos não acontece como medida de punição por incumprimento de promessas, salvo raríssimas excepções que apenas confirmam a regra. É sempre por outras razões. Por isso lá está o jargão: a oposição nunca ganha eleições; é o poder que as perde!


 


Mas esta pequena coisa de apresentar a sufrágio um programa, um plano de acção, uma ideia, enfim propostas que permitam ao eleitorado exercer o seu direito de opção, é a base teórica da democracia. Mesmo sabendo que na nossa, como em muitas outras democracias, infelizmente, muitas delas não irão ser cumpridas. Mas sabendo, também, que o cumprimento – da palavra, do compromisso, da obrigação ou da promessa – é primeiro alicerce da honra e, esta, o primeiro pilar da ética.


 


O objectivo de cumprir as promessas eleitorais, de levar a sério os compromissos estabelecidos nos manifestos eleitorais, é algo que, por muito desacreditado que esteja, terá de continuar a ser perseguido pelos que se submetem ao veredicto popular. Já em 1976 Eanes ganhou as primeiras eleições presidências do regime democrático sob o compromisso “eu cumpro”! Ainda na passada semana uma candidata autárquica em Valongo procedeu ao registo notarial do seu programa, para que, em caso de incumprimento, fosse judicialmente responsabilizável. Não sei se há aqui demagogia. Não sei sequer qual a eficácia. Mas sei que foi uma pedrada no charco. E sei que a valorizo mais do que a atitude oposta da Drª Manuela Ferreira Leite.


 


 Não é pois uma posição aceitável que um líder político com aspirações a governar o país diga que nada propõe, porque se o fizesse seria para não cumprir. É inacreditável e vem na linha daquela ideia da interrupção da democracia por uns meses. E da outra de sobre as medidas económicas e sociais do actual governo. Que há um mês rasgava e, na semana passada, já eram boas mas não tinham sido implementadas.


 


Não basta dizer as coisas com ar sério. As coisas que se dizem também têm de ser sérias. Se não corre o risco de perder o que ganhou quando se manteve calada.


 

Comentários

  1. O assunto dá pano para mangas, mas de facto a essência da democracia exige que se penalizem as promessas não cumpridas.
    E como é quando as medidas correctas são impopulares?
    Quantos dos eleitores portugueses serão capazes de apoiar um programa de governação em que sejam eles próprios penalizados, por perda de regalias, ou aumento das exigências?
    Não tenho resposta para estas questões, mas gostaria de ver um dos candidatos a testar a democracia portuguesa apresentando medidas impopulares.

    ResponderEliminar
  2. Depois de ouvir hoje Sócrates a dizer que está para nascer um Primeiro Ministro melhor do que ele, e destes quatro anos de ultra-demagocia e egocentrismo puro, faz bem Ferreira Leite em distanciar-se detsa politica rasteira e "chavista".
    A senhora diz aquilo todos sabemos, mas gostamos mais da música socialista.É o que merecemos sem dúvida.

    ResponderEliminar
  3. Como eu disse há muito tempo e hoje ficou claro no pensar Porto de Mós, Joga foi convidado na Batalha há uns meses,na pastelaria oliveira, pessoalmente pelo Júlio Vieira para que este catavento fosse o chefe de campanha do PSD.Na altura chamaram-me louco,mentiroso e que Júlio Vieira nunca faria isso, e agora? Quem tinha razão?

    ResponderEliminar

  4. Bom dia,

    Promessas na política, promessas cumpridas e por cumprir...

    Não há nenhum político eleito neste país que ganhe eleições sem prometer aquilo que não pode cumprir, não há um politico neste país que seja eleito sem mentir um bocadinho aos eleitores ... sem isto não são políticos e não conseguem entusiasmar quem neles vota.

    Já viram se eu me candidatasse à Câmara Municipal de Porto de Mós com as linhas mestras do meu programa a constarem no seguinte:

    - Eu se for eleito prometo apenas trabalho, suor, dedicação, amor pela causa pública.
    - Eu se for eleito prometo resolver todos ou quase todos os problemas financeiros da Câmara Municipal de Porto de Mós.
    - Eu se for eleito prometo apenas pagar dívidas, eliminar o passivo.
    - Eu se for eleito não vou fazer obra, não vou construir Escolas Profissionais, não vou fazer o Pavilhão Multi-Usos, não posso alcatroar estradas, não posso fazer um parque de lazer na vila.
    - Etc. Etc.

    Alguém imagina o número de votos que eu teria? Eu sim o meu os da minha lista e poucos mais.

    O povo gosta de ilusão, gosta de ver obra, gosta de promessas, folclore eleitoral, promessas bacocas, mesmo que isso custe anualmente milhares de euros ao cofres do estado (autarquias locais) e indirectamente aos nossos bolsos através dos impostos ... mas isso não interessa desde que o povo viva na ilusão (eu cá preferia que as contas públicas estivessem impecáveis e pagar menos de IVA e IRS e IRC mas a maioria do Povo não ....)

    Cumprimentos,

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Se soubesse o resto do seu nome e o seu percurso pessoal, com um programa eleitoral nessa linha teria provavelmente o meu voto, mas só vale UM voto.

      Eliminar

  5. Talvez conheça o meu nome e alguma coisa do meu percurso pessoal (a pulso) ...

    Mas Portugal existe uma democracia muito verdinha, onde a opinião pessoal de pessoas que têm a sua vida profissional ainda muito instável, que não tem rede de segurança que permita livremente expressar as nossas opiniões e convicções , fazem com que cobardemente tenha de assinar as minhas ideias como Maria ...

    As minhas desculpas ...

    ResponderEliminar
  6. E se não for eleita? Quantas horas dedicará às Instituições da terra? Em quantas Assembleias Municipais estará disposta a particpar, sabendo que o PúBLICO é o último a intervir,às vezes, muito depois da meia-noite?

    ResponderEliminar
  7. Este senhor Louro que é conhecido por ser esposo da candidata a candidata do PSD a Porto de Mós tem alguma graça, primeiro apresenta-se sem cor, mas de futebol é lampião esse expoente máximo de democracia e rigor financeiro, depois vem falar-nos das contradições de Manuela Ferreira Leite, mas nem uma palavra sobre a gestão Sócrates, é no minimo interessante que um economista, nada tenha que dizer do declinio da democracia da maior,em termos temporais, legislatura e incapaz de fazer o balanço do falhanço "refomador" do maior egocentrista pós Salazar.
    Eu fiquei esclarecido, faz-lhe muita confusão a seriedade de Ferreira Leite e nada lhe confunda a propaganda só comparada com os "bolchevistas".Grande aquisição esta do vila forte.Parabéns!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Gandembel

Foi um prazer estar convosco neste esplanada