Questões de Fundo #0
Existe uma grande falta de debate sobre muitos conceitos abordados diariamente, debate esse que a existir levar-nos-ia a todos a poder escolher mais conscientemente entre as propostas políticas que se nos apresentam.
Questões como:
- na política o que distingue a esquerda da direita?
- qual o papel do Estado na sociedade?
- o que é o liberalismo?
- o que é o socialismo?
- o que é a social democracia?
- em que diferem estas três correntes de pensamento?
- ...
Não sendo um entendido no assunto vou tentar recolher artigos sobre estes temas na net e aqui os partilhar. Sei que normalmente este tipo de post's não são propícios a comentários, mas de qualquer forma vou tentar fazê-lo regularmente.
Alguém me consegue explicar o porquê de que os partidos da moda (extrema esquerda) são a favor da liberalização das drogas, do aborto, de certos crimes e de muitas outras actividades ainda proibidas, dizendo que quem é contra é retrogrado (a direita) e a favor é avançado (eles). E com tanta liberdade que apregoam, por vezes dá-se uma cambalhota e ser liberal (os tais de direita) passa a ser perdição do mundo.
ResponderEliminarSou só eu ou há aqui qualquer coisa que não bate certo.
Caro Platypus
EliminarA questão quer coloca é pertinente.
Nem a direita é dona do liberalismo nem a esquerda é dona da liberdade.
Os factos que refere enquadram-se no liberalismo social. O liberalismo económico, demonizado pela esquerda, tem várias características que o tornam pouco apelativo, sendo que a principal será o facto de exigir aos cidadãos que se esforcem. Em alternativa uma sociedade em que o Estado é pai de todos e tem bolsos sem fundo, que até é capaz de sustentar quem não produz nem nunca produziu, é muito mais agradável.
Existirão vários pontos intermédios entre o liberalismo absoluto (regime nunca posto em prática) e o centralismo absoluto (tipo ex-URSS, Albânia, Coreia do Norte). Algures entre estes dois pontos descaído para a esquerda, encontra-se o socialismo dos PS's europeus. Acham por exemplo que o Estado deve subsidiar os sectores mais importantes, e para conseguir receitas de forma a subsidiar estes sectores estratégicos cobra impostos sobre todo o tecido económico.
Outros modelos, mais descaídos para a direita, como é o caso da Irlanda, optam por reduzir os impostos de uma forma geral estimulando todos os sectores de igual forma, atraem também o investimento estrangeiro e com o crescimento económico conseguido até conseguem mais receitas pelo aumento da base de incidência. Este modelo tem um requisito. Não é praticável num país em que o Estado tenha um peso esmagador, como acontece em Portugal onde consome muito mais de 50% do PIB.
Estou certamente a deixar detalhes importantes para trás, mas toquei de raspão num dos pontos que referi inicialmente e que se prende com o conceito que cada um de nós tem do papel do estado.
Preferimos um estado:
- esmagador na cobrança de impostos (lembrei-me agora da taxa da água do Sr. Salgueiro)
- esmagador a decidir qual o sector a apostar (em que o decisor tem sempre amigos)
- que nos promete levar o pequeno almoço à cama e que acaba ele por estar sempre a dormir.
Ou um estado que:
- funciona com uma estrutura reduzida e económica
- reduz os impostos à iniciativa privada e à criação de emprego
- tem uma estrutura de apoio social reduzida destinada a uma margem da população realmente necessitada
Já me estou a esticar e a sair da sua questão, mas acho que isto dá pano para mangas.
Vamos teclando.
O tema dá pano para mangas e será de difícil abordagem desta forma. Seria um bom tema para debater a partir de uma plataforma (não, não é dessas da informática) bem estruturada para o efeito. Desta forma, no entanto, permite-se a alguns "palpites". Tentarei deixar aqui uma dúzia deles, eventualmente a recuperar para um forum que se possa lançar (e aqui fica o desafio!):
Eliminar1) Liberalismo e socialismo assumem-se como duas correntes de filosofia político-económica que se constituíram numa base de resposta aos desafios da civilização e á evolução histórica do desenvolvimento social humano;
2) Na sua origem estão a Revolução Francesa, primeiro e, depois, o socialismo científico de Engels e Marx;
3) Este é apenas o ponto de partida. Depois, a dinâmica dos sistemas fez o resto. E, o resto é, fundamentalmente, a dialéctica dos sistemas,traduzida numa luta titânica pela sobrevivência;
4) É nesta dialéctica que a tentativa de implementação política do socialismo científico desmboca rapidamente nos modelos totalitários comunistas e que o liberalismo acaba por evoluir para soluções políticas de grande intervencionismo estatal;
5) É caso para dizer que, da luta travada, acabaram ambos derrotados.;
6) É neste contexto que vinga a social-democracia ou o também chamado socialismo democrático, uma e a mesma coisa;
7) É nesta dinâmica que, à queda do império soviético, corresponde um novo fôlego do liberalismo, agora designado de neo-liberalismo;
8) A dinâmica natural das sociedades cimenta valores civilizacionais que se diluem nos de esquerda e de direita, que são muitas vezes transversais e que provocam deslocamentos nas fronteiras de direita e de esquerda, acabando por tornar obsoletos os seus principais conceitos;
9) Veja-se como, hoje, nem o papel do Estado serve sequer de fronteira. Ou não será que assistimos à ressurreição de Keynes? Ou não será que vimos os liberais, por todo o mundo, a reclamar a intervenção do Estado nestes últimos tempos?
10) É claro que isto deu, agora, um pequeno estímulo à que foi acima chamada esquerda da moda. Mas a esquerda, da moda ou não mas muito "caviar", perante a insofismável e definitiva (?) vitória da economia de mercado (repare-se que não escrevo liberalismo) e perante o diluimento dos seus valores de referência, agarrou-se a muitas outras coisas surgidas a partir de modelos de contestação social nascidos de novas culturas, de que a "hippie", através da formatação política que conheceu o seu ponto alto no Maio de 68, é a principal referência;
11) É esta História recente que demarca os contornos da actual esquerda, dita de bem pensante, reclamante da superioridade moral e que, à falta de outros argumentos, tem que se agarrar aos chamados temas fracturantes que mais não são, nunca, que aqueles que a moral conservadora rejeite;
12) Finalmente, o Estado e o peso que tem na maioria das sociedades e dos países, entre os quais nos incluimos, é hoje mais consequêcia das superpestruturas políticas e das respectivas "nomenklaturas" do que de outros requisitos. Não serve para levar o pequeno-almoço a ninguém, mas sim para essas "nomenklaturas" tomarem o pequeno-almoço, o almoço, o lanche, o jantar e ainda o que a noite der.
Obrigado pela sistematização e pela forma clara como trata os conceitos.
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ResponderEliminarBoa tarde,
O Liberalismo económico e a livre concorrência de mercados, é de todo favorável ao bom funcionamento de uma economia.
No entanto este liberalismo não deve chegar a áreas fundamentais/essenciais, numa linguagem mais crua, áreas de 1.ª necessidade, nomeadamente educação, saúde, agricultura, electricidade, água, gás, combustíveis , e todos os serviços que deve ser o estado a disponibilizar e forma mais acessível e regular então outro tipo de actividades.
É aqui que surge o problema, pois os Governos estão cada vez mais a deixar de estar directamente ligados a estas áreas e pior não existe regulação, veja-se o caso BPN como outras centenas deles....
Mas é só uma opinião, mais ou menos leiga ...