Equívocos estratégicos
Continuo de férias. E férias, nesta altura e para quem preze o cruzamento de consciência nacional com sol e praia, é no Algarve.
Nesse Algarve de que se dizia estar às moscas e onde os estabelecimentos hoteleiros, particularmente os mais luxuosos, teriam tido necessidade de fazer saldos para atingir os níveis mínimos de ocupação.
Na verdade não senti nada disso. Nem moscas nem saldos! Mas não são os saldos que me ocuparam a mente, até porque, provavelmente, existiriam em latitudes que não teria preocupação de atingir. O que me assaltou o espírito foi perceber donde viria a ideia de que o Algarve estaria às moscas quando aquilo era o inferno de gente de sempre. Ou pior. Tenho por hábito, independentemente da zona onde me fixe, dar sempre uma voltinha por Albufeira, à noite. Pois, este Agosto e pela primeira vez, não consegui sair do carro. Tudo o que era estacionamento estava cheio!
Não foi necessário fazer um esforço mental muito grande para perceber por que razão, estando o Algarve cheio, se dizia estar às moscas. Afinal o que estava às moscas era o Allgarve! Eu explico: os bifes não vieram! Eram só tugas!
Claro que os portuguesitos não dão para encher tudo o que é infra-estrutura turística que por lá se plantou ao arrepio das mais elementares regras de planeamento e de bom senso. Mas dão para encher as ruas e os parques de estacionamento. E até dão para salvar o Algarve daquilo que seria um ano verdadeiramente catastrófico.
Se bem me lembro foi o ministro Manuel Pinho que teve a ideia do Allgarve. Se bem que a ideia do Algarve para os ingleses, já vem muito de trás. As cartas de restaurante em inglês, a food, os drinks e os bares ingleses, a par com o mau tratamento de que os portugueses eram objecto, como se fossem gente estranha, são já bem antigos no Algarve. Mas a ideia de Manuel Pinho, e os largos milhões gastos na sua promoção, não raramente em autênticas aberrações de marketing e de estética, apenas reforçou esse estado de coisas.
Ora isto é um erro estratégico dramático. Não é só dramático por menosprezar os portugueses que pagaram impostos para financiar essa campanha. É dramático porque se diz que o turismo é a única actividade económica viável para Portugal. É um desígnio estratégico nacional! É o nosso petróleo!
É um erro estratégico dramático porque não partiu da valorização da nossa diferença e ignorou literalmente todo o nosso potencial cultural e toda a nossa rica diversidade. Pelo contrário, apostou numa imagem de um país servil para o turista, que lhes quer oferecer aquilo que eles já têm. Que aposta nas únicas coisas que eles lá não têm – sol e praia – mas recriadas nos ambientes que lá têm. Que pega na sardinha assada e a serve com chips!
Como é óbvio ninguém sai do seu país para ir fazer turismo noutro que lhe oferece as mesmas coisas. Para isso fica
Depois, quando os ingleses não vêm, o Algarve está às moscas!
Espero bem que, quando tivermos aqui na nossa terra um executivo camarário que finalmente perceba que há um enorme potencial turístico a explorar, e que defina uma estratégia capaz de agarrar este mar de oportunidades, se lembre deste Allgarve. E que não se lembre de criar um qualquer Oporto Moss!
O que mais me preocupa é a falta de articulação entre regiões de turismo e dentro das regiões de turismo a falta de visão dos vários concelhos que as constituem.Isto origina aberrações com aquela que descreve, onde se enterram milhões de euros para coisa nenhuma.Na questão mais caseira, efectivamente está na hora de alguém ter só um pouco de mais visão que o que temos tido para que os resultados pareçam fantásticos.É que em terra de cegos quem tem olho é Rei...
ResponderEliminarabraço
Se me permite :
ResponderEliminarNão tenho comentado, embora leia sempre o blog, porque estão em eleições e , para ser franco, não estou totalmente dentro da política Portuguesa.
Em contrapartida, creio já o ter escrito aqui : Portugal tem um património riquíssimo que pode ser explorado turisticamente. Não creio que os turistas procurem o sol como pelo passado. E aqueles que o procuram vão para a Tunísia que propõem prestações muito superiores às do Algarve.
Se a França é o primeiro destino turístico do mundo é porque soube aproveitar o seu património. Acabo de passar duas semanas de férias no Perigord, turismo rural, fantásticas.
Penso que já aqui escrevi que a campanha lançada por Portugal na altura para difundir o turismo, há uns 15 anos atrás, era ridícula. Os cartazes de Portugal apresentavam somente prais Algarvias, enquanto os cartazes espanhois ou franceses apresentavam diversidade ( e cultura ).
Um exemplo : Tenho um casal amigo com dois filhos em idade escolar. Queriam conhecer Portugal. Pediram-me conselho. Indicar-lhes o Algarve seria um absurdo, já que ele é originário do midi.
Tomei a iniciativa de aconselhar a região de Guimarães. Alugaram ( 15 dias ) e voltaram encantados. Porquê ? Poderam, por exemplo, mostrar aos filhos , concretamente, algo que talvez seja raro num perímetro pequeno. A pré-história ( citânia), a idade média baixa ( Castelo ) e os Paços época mais tardia. É um exemplo assim, onde se pode visitar sem se ter que forçosamente sempre recorrer ao carro.
Eu continuo a pensar que Portugal com o seu enorme Património pode oferecer múltipas referências turísticas.
De repente lembro-me de Foz de Coa. Nunca vi nenhum cartaz ( o que não quer dizer que não existam ) por aqui que mostrasse e apresentasse um sítio que faz parte do património mundial.
Quando penso nos milhões de visitantes que as grutas de Lascaux ( réplica excelente / a verdadeira fechou para proteger as pinturas ( Périgord ) conhecem...
E Viva o Porto !