Dia Mundial Alzheimer *
Fui recentemente confrontado com um diagnóstico de Alzheimer a um familiar próximo, que me levou a pesquisar informação mais detalhada sobre a doença.
De uma forma natural, percorri toda a infância até à idade actual, recordando imagens, sentindo cheiros e ouvindo sons da altura, que evidenciam, nesta altura da minha vida, a inversão dos papéis de cuidados prestados pelos progenitores à sua descendência. A nostalgia tem destas coisas e faz-nos pensar naquilo que, de outra forma, talvez não nos permitisse abrir novos horizontes.
A actual sociedade tem vindo a sofrer alterações profundas, aos mais variados níveis, que vão desde os novos padrões da educação a que submetemos as nossas crianças, desde a mais tenra idade, até à forma como abandonamos os nossos idosos/velhos, entregues à sua sorte e à solidão.
Não é novidade para nenhum de nós, que vamos vendo as notícias recentes, de hospitais que registam, cada vez mais, um número elevado de camas ocupadas com idosos a quem a família não quer ou não tem condições para receber nas suas casas, especialmente se … ainda trabalham.
A quem podemos confiar a sorte dos nossos mais próximos, que cuidaram de nós enquanto fomos crianças, que nos foram buscar à escola, que nos deram a primeira mesada, que nos puxaram as orelhas quando foi necessário, que assistiram, com orgulho, à nossa Queima das Fitas e nos viram em estados pouco sóbrios, que nos levaram ao altar, no dia do nosso casamento e estiveram prontos para nos ajudar com os nossos filhos?
Em alguns países da nossa Europa, existem as residências assistidas que garantem aos idosos o conforto das suas casas, com assistência médica e cuidados de enfermagem, higiene diária, entre outras actividades que lhes permitem manter a sua dignidade, apesar da sua fraca autonomia, na maior parte dos casos.
Nós por cá, ainda não me refiro ao programa da SIC, mas estamos confinados aos grandes centros urbanos, a preços que muitos hotéis provavelmente não cobram nas suas diárias.
Será que a restante população não é digna ou merecedora de semelhantes cuidados? Será que a desertificação não pode ser combatida com criação de empregos nesta área tão vasta?
Será necessário e correcto limitar o número de vagas e elevar as médias de acesso às medicinas, para termos depois, o reverso da medalha, com médicos estrangeiros e estudantes nacionais a fugir para universidades além fronteiras?
Questões transversais a toda a pirâmide social, que nos podem passar ao lado, se não tivermos receptividade para ver e ouvir.
Os difíceis dias que hoje vivemos levam-nos ao egocentrismo e não permitem a criatividade nem a simplicidade de conceitos tão básicos quanto o voluntariado, nem a entreajuda a quem necessita, em todas as áreas que todos nós conhecemos, por experiência própria, como é o meu caso, ou por testemunhos que nos vão chegando.
Penso que, estará, também, nas nossas mãos dar um passo em frente e explicar às crianças como podemos ajudar sem pedir nada em troca e sem esperar que nos peçam ajuda.
O simples facto de saber que o avô da minha esposa, que já tem momentos de grande confusão mental e se vê confrontado com a toma de inúmeros medicamentos, fez-me levantar questões tão simples da nossa complexa sociedade.
Deixo-vos um convite para se pronunciem sobre as questões que aqui levantei e que partilhei sobre esta triste realidade.
Para quem, como eu, quiser saber mais sobre a doença, podem consultar o site:www.alzheimerportugal.org
* escrito em Fevereiro do corrente ano, mas neste dia penso ser útil voltar a dar notoriedade ao texto.
Boa tarde Sr. Pedro.
ResponderEliminarComentar a doença para mim faço-o com raiva não só pele doença mas também como os doentes são tratados :Fala-se de cuidados continuados que estão previstos centros de acolhimento para doentes de Alzheimer em todos os distritos, mas não passa de conversa fiada, porque que nos governa tem rendimentos para por os seus familiares em lares da especialidade ,os outros têm que tratar dos seus como podem, tenho a minha mãe acamada, não sabe que é quem somos, onde está, uma coisa nós sabemos é que a tratamos com o maior carinho que é possível , mas não chega a dignidade do ser humano tem que ser maior do que a que a minha mãe tem. Fala-se de TGV , aeroportos ,travessias, auto estradas fala-se de tudo menos do apoio social a estas e outras doenças que a cura só Deus dará quando os levar. Fiz um protocolo com a Segurança Social comprei uma cama hospitalar para ela enviei toda a documentação ,resposta " Orçamento esgotado em Junho de 2008 para estas situações tem que voltar a reenviar o processo para analise" estou a falar de 600,€ , a S Social perdeu na bolsa milhões a quem pediram permissão de investirem com risco ? Não seria melhor equipar o Portugal com melhores condições, hoje para os nossos pais amanha para nós próprios ? Mas só me resta uma coisa ,é dar o melhor que a minha mãe merece, carinho e amor.
Como percebo a sua revolta meu Caro João.Somos um país que não cuida dos seus,mas esta doença está para ficar. Segundo os números que hoje estão na imprensa os doentes de Alzheimer em Portugal vão duplicar nos próximos 30 anos: 180 000 Portugueses.
EliminarPena que nem neste dia se fale desta doença, que custa tanto aos familiares.Ver um ente querido assim, é uma dor de coração diária.Engane-se quem pensar que esta doença é uma doença só de velhotes com 75 ou mais anos.
Um texto oportuno e onde se levantam algumas reflexões credoras de maior atenção.
ResponderEliminarA questão da Saúde, entre nós, continua ainda a centrar-se muito na "repressão" imediata da doença e passa ainda muito pouco pela "prevenção" e pelo "apoio continuado" àqueles que necessitam.
A lógica economicista impera e nos hospitais o que importa é tratar e dar alta o mais rápido possível; o que sucede depois, em casos como estes, em que os pacientes necessitam de cuidados contínuos já é coisa que a família tem de resolver sózinha ou com o tradicional recurso à sacrossanta intituição nacional do "desenrascanço" ou da "cunha". Desenrascanço para dar largas à imaginação de saber como esticar o depauperado orçamento para mais não sei quantos medicamentos e para saber como conciliar a necessidade de trabalhar, cuidar dos filhos, do relacionamento com o cônjuge com a existência de um familiar próximo doente.
Da cunha porque na IPSS da freguesia até há um equipamento, mas ... porque na Segurança Social até nem há verba, mas com a palavra certa ...
Depois, e como bem se assinala, se a tudo isto juntarmos o excessivo egocentrismo das pessoas ...
Penso ter-te dito em Fevereiro que conhecia um caso próximo, de uma amiga com Alzheimer e que a doença era bastante rápida; infelizmente verifico-o todos os dias.
ResponderEliminarÉ sobretudo muito difícil para os familiares assistirem a tal degeneração da vida.