Partidos Políticos: Quo vadis
A edição do último fim-de-semana do Expresso era toda ela marcada pela temática dos partidos políticos: desde o recorde absoluto dos 91 milhões com que animarão as campanhas eleitorais que se avizinham que, para além de fazer a manchete, era objecto de vasta análise e de não menos densa opinião, ao défice doutrinário e ideológico, passando por questões de estratégias partidárias e mesmo pela questão central da sobrevivência dos partidos políticos e da democracia representativa no contexto das novas tecnologias.
Não é para puxar dos meus galões de apartidário militante que aqui trago este(s) assunto(s). Nem tão pouco pelo insólito de um jornal institucional como o Expresso, a mais emblemática publicação do regime, lhe ter dedicado, quase em exclusivo, toda uma edição de forma marcadamente crítica. Nem pelas surpresas que aí encontrei, como as mais imprevisíveis opiniões de colunistas devidamente etiquetados. Muito menos pela recente polémica aqui suscitada na passada semana a partir do artigo do Jaime Nogueira Pinto, sobre a necessidade de um novo partido, da verdadeira direita, para o qual não resisto à tentação de sugerir dois nomes: PIDE (Partido Institucional da Direita Elitista) ou, em alternativa, Partido da Essência Ideológica da Direita Ortodoxa, cuja sigla me dispenso de enunciar.
É apenas para reflectir um pouco sobre o trajecto que os partidos políticos têm feito ao longo destes 35 anos do regime e o papel sobredimensionado, a meu ver, que ocupam na nossa comunidade.
É claro que esta reflexão não pode passar ao lado do verdadeiro escândalo em que se tornaram os gastos dos partidos nas campanhas eleitorais. Pela sua dimensão verdadeiramente obscena e inqualificável para o país que somos, mais gritante ainda nos tempos de crise sem paralelo que atravessamos. Pela escandalosa lei de financiamento que, todos sem excepção, fizeram aprovar na Assembleia da República. E, the last but not the least, pela irracionalidade desses gastos. Uma irracionalidade pouco abonatória das competências e capacidades necessárias para tratar da coisa pública. Que não distingue o marketing dos sabonetes do da política. Que não tem a noção de desperdício, estourando milhões em coisas despejadas directamente nos caixotes do lixo.
Ao proibir os partidos políticos a ditadura do anterior regime deu um forte contributo para o estado a que chegaram. Deu-lhes uma legitimidade acrescida que a Constituição de 1976 se limitou a consagrar. A partir daí, e ao longo de todos estes anos, foi vê-los a dominar todas as áreas da sociedade, ocupando tudo o que há para ocupar através do milagroso salvo-conduto que o cartãozinho representa. Pondo e dispondo, muitas das vezes sem qualquer pudor, para perpetuar o poder mágico do cartão, com dois momentos altos que se conjugam no período que estamos a atravessar: a preparação das listas de candidaturas e o reboliço das danças das cadeiras que se segue às eleições.
As listas de independentes foram sendo sucessivamente adiadas, apenas autorizadas para eleições autárquicas em 2003 mas continuando de acesso vedado às legislativas. Mas, mesmo quando autorizadas, logo vimos que, em regra, mais não eram que meros refúgios de dirigentes partidários caídos em desgraça no seu próprio partido. Quando não mesmo refúgio de foragidos à Justiça por crimes praticados a coberto do poder do cartão!
Não admira pois que a participação cívica nas causas públicas seja uma preocupação afastada da maioria dos portugueses. E não admira que não disponhamos de uma sociedade civil activa e empenhada em romper com as amarras que atrofiam o nosso desenvolvimento.
Não digo que vivamos numa ditadura dos partidos. Nem que os partidos políticos constituam associações de malfeitores. Nada disso. Mas que muitos dos constrangimentos que marcam a sociedade portuguesa resultam desta partidocracia geralmente mais virada para os interesses dos seus pares do que para os da comunidade, disso não tenho dúvidas!
Seria bom que os partidos políticos, todos, novos e velhos, passado que seja este período de enorme intensidade, aproveitassem o rescaldo para reflectir sobre tudo isto ... e pudessem inverter caminho!
Ao longo destes quase 3 anos, uma das lutas do VilaForte tem sido essa, ie, tentar mostar que as novas tecnologias permitem que nós, que pensamos pela nossa cabeça e que não "cabemos" nos critérios partidários, podemos intervir, ser ouvidos,lidos e que até temos boas sugestões para serem implementadas.Não é por acaso que Santana Lopes e António Costa, fazem encontros com blogers.Alguém escreveu na net, que os blogers são os padres e os médicos do sec.XXI no que diz respeito à influência de opinião.
ResponderEliminarOs partidos têm forçosamente de mudar a sua postura perante as pessoas, senão correm o risco de se resumirem a meia dúzia de pessoas a quem ninguém liga e que depois se traduz em abstenções enormes, levando a que um dia destes apareça por aí um artista qualquer e depois ò tia que a casa foi assaltada.
Parece-me tão errado falar na meia dúzia de pessoas ligadas aos partidos como falar nos Blogs como solução para tudo, como dizer que não se lêem Blogs, quando toda a gente sabe que não só lêem como comentam. O que será interessante será conseguir fazer dos blogs pontos de "reunião" e discussão destinada a toda a gente mas uma coisa sem a outra, pelo menos no actual panorama não funciona. Todos sabemos que há "bloggers" com muito boas ideias e que as expõem de forma clara e a seguir com um outro qualquer "nome" se apresentam na discussão apenas para criar confusão e aproveitar a possibilidade do anonimato para dizer mal, muitas vezes só para "puxar a língua" a outros.
EliminarPor outro lado o nosso país com o grau de analfabetismo que apresenta e que não tem apresentado um decréscimo que devia, não está preparado para uma solução dessas. Uma coisa que me parece fundamental será que os dois mundos tenham lugar, ou seja, o pessoal dos Blogs, sair da secretária e abrir-se à discussão em fóruns à maneira antiga até com matéria previamente discutida na blogosfera e será necessária uma medida de abertura "dos que não lêem blogs" e assumirem que o fazem e que estes são bons instrumentos de trabalho e se calhar até vão lá mandar achas para a fogueira para ver a reacção do outro lado.
Por outro lado é muito fácil a qualquer pessoa estar sentado numa cadeira a teclar, mas criar um grupo de trabalho onde se saia para o exterior se lide com as populações sentir as suas necessidades mais básicas e daí sair uma solução de governo é muito difícil pois se assim não fosse com tanta discussão que por aí vai teríamos candidaturas realmente independentes com pessoas de todas as cores partidárias mas que estavam esquecidas e com uma linha de rumo que seria o bem da sociedade em que se inserissem só que até chegarmos a esse ponto há ainda muita tecla para carregar. Mas pode ser que um dia se chegue a esse ponto. Agora há coisas que são indesmentíveis os partidos têm que mudar mas são fundamentais na sociedade em que vivemos. Podemos dizer que não sendo perfeitos não uma alternativa melhor, mas o mundo está em constante mudança e se nem sempre houve partidos será certo que nem sempre serão indispensáveis.
Caro anónimo,
EliminarParabéns pelo seu comentário, é a prova provada que saber quem está por detrás dos comentários pouco importa, o que importa são as ideias e a mais ou menos valia que acrescentam aos textos dos editores.
abraço
ResponderEliminarBom dia,
Sem dúvida que nos blogs há muita gente válida, muita gente com opiniões válidas , sem dúvida, também é certo que não têm a solução para tudo, independentemente do anonimato opcional ou porque é necessário (receio).
Relativamente ao post , as verbas gastas pelos partidos são obscenas, são provocatória para um povo cada vez mais empobrecido, onde uma classe média passa por enormes dificuldades para manter uma vida com dignidade, tenho de concordar com o Sr. Eduardo Louro.
Tenho de concordar e acrescentar, se as verbas gastas são obscenas num cenário de crise profunda, o pior é como surgem estas verbas, uma parte vinda do orçamento de estado logo dos nossos bolsos e uma outra parte vinda de uns supostos "APOIANTES" que "DÃO" aos partidos verbas para pagar as campanhas, qual será o resultado?
Esses "APOIANTES" terão no futuro se ser compensados por essas verbas, como? com negócios altamente vantajosos com o aparelho de estado, normalmente com a adjudicação de obras públicas orçamentadas ao desbarato, com a aquisição de bens e serviços pelo estado ... etc. etc. e este jogo de interesses/influências é que é verdadeiramente obsceno pois vai para além dos referidos 91 milhões ...
Cumprimentos,