A tragédia do Salário Mínimo Nacional
O salário mínimo nacional (SMN) é uma verdadeira tragédia. Porque é miseravelmente trágico e porque, como se isso não fosse suficiente, é usado e abusado na actividade económica e no discurso político.
Na actividade económica, para além de prática remunerativa aplicada a cada vez mais vastos extractos da população activa, continua a ser o indexante privilegiado para muita coisa, mesmo quando completamente despropositado. Em vez de constituir uma base mínima de referência ou de limiar (de pobreza) transformou-se, à medida que foi sendo miseravelmente actualizado, na própria referência. Não é mais uma base mínima de referência salarial para os deserdados do sistema – os menos qualificados – mas sim a referência salarial para todos e, em particular para os jovens, mesmo os qualificados com licenciaturas. Ainda há não muito tempo o SMN era praticamente de aplicação marginal nas empresas. Hoje, fruto das circunstâncias, é oferta salarial corrente e despudorada.
Sim, bem sei que temos problemas de competitividade mas isso é outra coisa. Tem outros contornos. Hoje o recurso ao SMN situa-se noutro quadro – no da oferta e da procura – e penaliza particularmente toda uma geração de jovens impossibilitados de verem o trabalho como factor de libertação, de emancipação e de mobilização.
Em sede de concertação social tinham sido estabelecidas as condições que fariam evoluir o SMN dos 426 euros em 2008 para os 500 em 2011, passando pelos actuais 450 euros. Continuando a ser valores que nos envergonham por essa Europa fora, constituíam uma base mínima de respeito pelos cidadãos mais desprotegidos e mais abandonados na autêntica selva em que tudo isto se transformou.
Pois bem, agora que caminhamos para o final do ano, o que quer dizer para a sua actualização a caminho dos tais 500 euros para 2011, não param de chover as reclamações e os alertas do perigo que aí vem. O pontapé de saída foi dado pelo presidente cessante da CIP. Logo aproveitado pelo candidato a sucessor, António Saraiva, quem sabe se convencido (ou a querer convencer alguém) que está envolvido numa disputa eleitoral para o cargo, onde este tipo de discurso colha junto da sua plateia. Seguem-se, depois, ilustres economistas e gestores alertando para a incapacidade da economia suportar tão desajustados aumentos. A competitividade, a produtividade… com que, eles, nada têm a ver. Há um, cujo nome me dispenso de referir, que até diz que essa não é a forma de combater a pobreza. Que as empresas nada têm a ver com isso, que é um problema exclusivo do Estado que, para isso, deve criar um escalão negativo de IRS.
Como é possível que o Sr António Saraiva, cuja biografia indica ter-se iniciado como aprendiz de serralheiro mecânico na Lisnave, ou alguns dos mais bem pagos gestores e economistas (muitos de forma verdadeiramente obscena), não corem de vergonha quando falam assim?
Estas são as pessoas, e é este o modelo, que nos afundam ainda mais na nossa trágica mediocridade!
Infelizmente passados 3 anos Portugal continua na mesma, por isso é que é bom termos memória colectiva e o facto do vila forte já ser cota nestas andanças dá para fazer pontes e avaliar o quanto este país não muda, convido que leiam este texto de 2006 e respectivos comentários:
ResponderEliminarhttp://vilaforte.blog.com/2006/11/17/competitividade/
Continuamos a apostar no caminho errado!
abraço Eduardo e até logo.
Bem a MFL também achou exagerado o aumento do SMN, mas com esta Familia Politica e empresarial e Sindical que vivem das dávidas da UE e de financiamentos bancários até a morte final da empresa, acho que era melhor passarem a 1-euro/mês e porrada pra cima de chicote.
ResponderEliminarEles a que deveriam receber e viver com esse salário que aprendiam o A.E.I.O.U. num rapidinho.
Mas quando se fala numa pensão Vitalicia de Milhões para Milhares como exemplo de um Administradio que para além de uma fortuna de pensão do BCP tem um Jacto-Privado e 40-Seguranças... tudo Bem
Sem querer tecer agora mais comentários sobre o SMN, deixo contudo uma nota refletiva sobre esta problemátiva. Quantos milhares de cidadãos portugueses que trabalham 8 horas diárias, auferem este miserável ordenado ?. Como é possível que empresários ou dirigentes patronais como os que refere, tenham a desvergonha de falar em SMN, como como análise de produtividade! Só mesmo neste país!
ResponderEliminarA sua análise sobre esta questão é do meu ponto de vista excelente e um alerta para quem não quer ser considerado como empresário de faz de conta -
Dou-lhe 18 valores pelo texto, como faz o Dr. Marcelo.
Sobre este assunto ler:
ResponderEliminarhttp://carlosvferreira.blogspot.com/2009/11/crise-e-desigualdade.html