Amália
Passam hoje dez anos sobre o desaparecimento da nossa diva. Como é normal nestas efemérides mais redondas multiplicam-se os tributos.
Ao lembrar Amália, aqui e hoje, mais do que render-lhe a minha insignificante homenagem pretendo partilhar um sentimento pessoal sobre uma das grandes figuras nacionais do século passado. De uma mulher que, num período da História em que Portugal estava orgulhosamente só e isolado do resto do mundo, levou, com Eusébio, o nome do nosso país aos quatro cantos do mundo. Que foi uma embaixatriz de um país que não existia!
Quis o destino que viesse a passar a maior parte do meu tempo de estudante universitário mesmo ao lado da casa de Amália. Morava num sétimo andar na Rua de S. Bento - à data o único prédio da rua de tal dimensão - cujas traseiras davam precisamente para o pátio, transformado em jardim, da sua casa. Um jardim de que recordo as rosas e, acima de tudo, os fabulosos painéis de azulejo. E onde quase diariamente a podia observar em fugazes aparecimentos. De resto a relação de vizinhança não dava para mais do que uns esporádicos cruzamentos, que aproveitava para uma respeitosa vénia. Uma ou outra vez cruzamo-nos num restaurante em frente, já desaparecido, e onde eu ia todos os dias e ela uma vez por outra. Muito raramente.
Tinha então uma noção da sua dimensão mas, confesso, não sentia uma admiração por aí além, quer pela figura quer pela obra. Assistira a um seu espectáculo, mais por oportunidade circunstancial do que por especial motivação. O fado não me dizia nada e alguma vez comprar um seu disco era coisa que nem me passava pela cabeça. Assisti ao vivo, da janela e já muito incomodado, às cenas de provocação de que foi vítima na célebre manifestação de 28 de Setembro (de 74) no contexto do episódio da maioria silenciosa. Mas não foi aí que se deu o click!
Foi bem mais tarde, já a passar a barreira dos 40 - a idade tem esta fabulosa virtude - que descobri Amália. Devo dizer que entrei nos quarenta há já largos anos, bem antes do surgimento desta nova vaga de fadistas que trouxe uma nova imagem, um novo mercado e uma nova vida ao fado. Descobri-a pela voz e pela música mas, fundamentalmente, pela poesia.
O que Amália teve de único no panorama do fado foi, para além de uma voz inigualável, introduzir-lhe a poesia erudita. Foi cantar os grandes poetas da nossa língua, resgatando o fado daquelas quadras vazias com estórias de amor e ciúme, de desgraças e desgraçadinhos.
Lembro-me de, aqui há uma dúzia de anos, uns amigos meus italianos, interessados pela nossa cultura, me terem manifestado o seu interesse em conhecer algo da nossa música, que desconheciam em absoluto. Ofereci-lhes então três álbuns: Zeca Afonso, António Variações (ainda antes dos Humanos) e … Amália. Mas, como eram mais jovens que eu, alertei-os para duas condições para ouvir Amália: aprender português e esperarem mais uns anitos!
Hoje a Antena 1 dedica o seu dia a Amália e estava a passar a música Primavera, o meu filho fez este comentário: Esta mulher tem uma voz fantástica.
ResponderEliminarEle que adora fado de Coimbra, os Humanos,UHF e principalmente Xutos, perguntou-me porque não tinhamos nenhum CD da Amália.Lá lhe respondi que sempre ouvi muito pouco Amália e por isso não era escolha para a nossa discografia, mas depois deste interesse demonstrado, no próximo fim-de-semana irei à FNAC tentar descobrir Amália Rodrigues.
Aceito sugestões de músicas/cd´s.
Boa semana a todos
Há uns anos numa visita que fiz ao Museu do Traje estavam expostas algumas roupas com que Amália actuou. Nas paredes estavam prospectos de alguns espectáculos que deu pelo mundo fora. Um deles reteve-me a atenção pois estava escrito em alfabeto cirílico e respeitava a uma actuação em Moscovo, cidade que eu tinha visitado há pouco tempo. Imaginar a fria Moscovo a ouvir fado cantado por Amália fez-me entender o seu papel de embaixatriz da língua portuguesa que foi. Soube num qualquer documentário sobre a sua carreira, que após a sua actuação no Japão a procura pelo ensino do Português disparou.
ResponderEliminarLembro-me também de há dez anos, poucos dias após o seu desaparecimento, ter ido ver um Portugal-Hungria ao estádio da Luz, na fase de apuramento para o Euro2000, e de se ter ouvido Amália durante um minuto em todo o estádio. 65.000 pessoas ficaram arrepiadas e ganhamos por 3-0.
Este texto trouxe-me à memória uma anedota contada por alguém que conheci muito bem.
ResponderEliminarVeio nos finais dos anos sessenta visitar Paris.
Tava nos Campos Elísios a beber um café com amigos, quando o "garçon" lhes perguntou que língua falavam. Responderam Português. O garçon respondeu : Mas os portugueses não são Africanos ? Eu só conheço o Eusébio como sendo Português e ele é Africano.
Amália tinha uma voz fora de série. Sem dúvida uma grande Diva !
Daí a considerá-la uma embaixatriz da cultura Portuguesa há um passo. Linda de Suza também cantou no Olímpia várias vezes.
O grande embaixador, quer se goste ou não, da língua e cultura Portuguesa foi e é Fernando Pessoa.
Aliás, único autor pt publicado na Pleiade.
Depois há aqueles que são conhecidos aqui e esquecidos aí : Tou a pensar em Nuno Judice (grande sucesso ), Gil o filósofo, Damásio, Maria João Pires , Lobo Antunes...
Paradoxalmente, salvo erro meu, numa época recente, o primeiro livro de bolso, traduzido do pt de portugal, em França, aquele que vendeu mais de 10 000 exemplares para passar para edição bolso, foi Fernando Campos com " a casa de pó ".
Estranho né ?
E Viva o Porto !