Guru do Chiado

Da pizza diz-se que o segredo está na massa. Da Gestão diz-se que está na flexibilidade e na agilidade.


Particularmente em tempos de crise, como os que teimam em continuar, a agilidade da gestão tornou-se num verdadeiro mito. Só as empresas com grande flexibilidade, com enorme capacidade de adaptação em tempo real à mudança conseguem vingar e atingir o sucesso.


De facto a mudança sempre teve muito de assustador. Resistir-lhe foi e continua a ser um factor de bloqueamento. Na sociedade e, inevitavelmente, nas empresas. Responder à mudança é um factor crítico de sucesso, e responder-lhe rapidamente e em força, exige enorme agilidade. Chamamos-lhe, popularmente, jogo de cintura ou também flexibilidade de rins.


Este mito da agilidade e da flexibilidade de gestão continua a tirar o sono a muitos gestores e empresários, que passam noites de autêntico pesadelo a matutar na forma de alcançar tão valioso desiderato. Pois surpreendam-se: vou dar uma ajuda.


Há já alguns anos que venho observando, em Lisboa (é em Lisboa que tudo se passa...), o mais emblemático case study de agilidade e flexibilidade na gestão de um negócio. Passa-se no Chiado e tem como protagonista uma senhora, de aparência desenrascada, seca de carnes e à volta dos 50 anos.


Está sol e a senhora apresenta-se na Rua Garrett com os dois braços carregadinhos de óculos de sol, para a senhora e para o cavalheiro, pró menino e prá menina, de todas marcas: Ray Ban, Gucci, … Mas, de repente, o céu escurece e anuncia  chuva. Num ápice a senhora desaparece com os óculos de sol e reaparece, minutos depois, com os mesmos braços agora carregadinhos de chapéus-de-chuva. A chuva pára e, se volta o sol, volta ela com os seus óculos. Mas, se o sol não está voltado para emprestar ainda mais beleza ao Chiado e a chuva é substituída por uma aragem fria, a senhora, os mesmos minutos depois, está de regresso com os braços carregadinhos de luvas e cachecóis.


Delicio-me com esta demonstração de agilidade desde há uns 4 anos. Ontem decidi que era tempo de meter conversa, de ao menos lhe perguntar o nome. Não podia deixar passar mais tempo sem juntar o seu nome à minha lista de gurus de referência. Saí do parque de estacionamento (Império): o sol brilhava, o Chiado estava lindo e cheio, como sempre. Ela lá estava, ao fundo, com os braços carregados de óculos. Mas, de repente, sem sequer me darem tempo de me aproximar, umas nuvens negras taparam-no… Fica para a semana!


 

Comentários

  1. Aproveitando o break do almoço de uma formação em estatistica, diria que a probabilidade de ela vender mais chapéus de chuva do que óculos de sol é grande nesta época, portanto que se cuide nos stocks, pois são custos que podem pesar na sua liquidez.

    p.s: Aproveito também para informar que temos leitor 500 000 e que a seu tempo irá receber o livro prometido,devidamente assinado por todos nós.

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    1. So aceito ser não vier assinado

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    2. Peço desculpa ao Eduardo, mas esqueci-me de dizer no comentário quem foi o leitor 500 000.Foi o Jorge Oliveira.
      Obrigado

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  2. Senhor Eduardo Louro, este post está divino.
    E eu que até achava os seus posts um bocadinho chatos( desculpe lá a expressão).
    Mas este valeu.
    E sabe porquê?
    Porque é nas pequenas coisas, naquilo que está mesmo ali ao lado, no que ninguém liga, que se encontra a sabedoria.
    È só sermos capazes de olhar com os olhos do nosso Eu Interior e o senhor fez isso.
    Adorei.
    E já agora, vá trazendo mais Gurus dessa sua lista.
    Nos "tempos conturbados que correm" são tão precisos.
    Um até sempre.

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  3. Há coisas curiosas. Eu a comentar um outro post seu e quando ía para fechar o computador, encontro outro.
    O da agilidade mental e estratégia de mercado em situações económicas dificies.
    Não é que o caso que você relata é do meu conhecimento pessoal e a senhora se chama "Maria Despedida da Vitória. Ela foi uma trabalhadora despedida do emprego (por causa do nome e de ser delegada sindical) e fundamentalmente por ter opinião sobre a gestão fraudulenta que o seu patrão praticava.
    Acho que também é do PCP e também não sabe o que é um Gulag, mas conhece as regras do jogo e já consegue também ganhar alguns euros com a flexibilidade. Mas aqui há dias, disse-me que as vendas estavam a cair e que os seus fornecedores, já não tinham material para lhe entregar, dada a valorização do euro em relação ao dólar. Sabe mesmo muito esta vendedora, e parece que vai tirar um curso de gestão empresarial e depois de seguida vai tirar outro de economia.

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    1. Há coisas curiosas, Sr Antóno Carvalho!
      Será que esta senhora é também o paradigma, tantas vezes apregoado e na maioria das vezes agitando a poeira contra os nossos olhos, de que em cada ameaça há uma oportunidade? Então não é que esta senhora, depois do que nos conta, é mesmo um guru que tem que passar para os tratados da gestão capitalista?

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