O mito da sabedoria eleitoral

A leitura dos resultados eleitorais transformou-se numa das mais criativas actividades da imensa clã de comentadores que preenchem o espaço mediático.


 


No meio de tantas leituras há uma que me levanta algumas dúvidas e mesmo alguma perplexidade. Tem a ver com a propalada sabedoria (eleitoral) do povo português. Ou o mito da superior clarividência do eleitorado português traduzida, neste caso, na ideia que o povo quis que o PS continuasse a governar mas sem maioria, que quis impor a Sócrates um banho de humildade, levá-lo a abandonar a sua arrogância e obrigá-lo a dialogar e a saber partilhar o poder.


 


Uma conclusão deste tipo parte do pressuposto de uma entidade com identidade própria que, a meu ver, não existe. O que não significa pôr em causa a identidade portuguesa, porque essa existe claramente, através de uma identidade cultural e comportamental bem definida.


 


O eleitorado é uma realidade diferente da de um povo. Enquanto um povo representa uma entidade colectiva ligada por um conjunto de laços comuns (História, língua, cultura, etc.) e unido através mecanismos e simbologias de representação (pátria, bandeira, hino, etc.), o eleitorado representa uma mera projecção dessa entidade numa circunstância particular.


 


O eleitorado é o conjunto dos cidadãos na sua qualidade de eleitores. E a expressão eleitoral o somatório das opções individuais, a soma do sentido de voto de cada um.


 


Será possível afirmar que os votantes em cada uma das diferentes forças partidárias expressaram outra coisa que não a sua preferência particular? Será aceitável entender que quem votou no PS queria outra coisa que não a vitória da sua opção? Que teria alguma ideia de, com o seu voto, obrigar Sócrates a entender-se com os seus adversários? Ou quem votou PSD o fez para reconverter a personalidade política de Sócrates? Parece-me claro que votou para que a sua opção saísse vencedora!


 


É certo que o mesmo se não poderá afirmar categoricamente no caso dos eleitores dos restantes partidos. Aí cruzar-se-ão votos afirmativos, de convicção política e programática, e votos de negação ou de protesto, como agora se diz. Que têm como objectivo precisamente reforçar a representação dos ideais que perfilham ou penalizar quem os desiludiu.


 


Aquela leitura é, assim e a meu ver, insustentável. Poderá perceber-se que vise lançar a ideia que, afinal, o único problema da governação de José Sócrates e do PS reside na arrogância e que, limada essa aresta, continuaremos no melhor dos mundos. Mas isso está bem à vista que não é verdade!


 


 


 

Comentários

  1. ...(...) Não é verdade que o céu seja indiferente às nossas preocupações e anseios. O céu está constantemente a enviar-nos sinais, avisos, e se não dizemos bons conselhos é porque a experiencia de um lado e do outro, isto é, a dele e a nossa, já demonstrou que não vale a pena esforçar memória, que todos a temos mais ou menos fraca. Sinais e avisos são fáceis de interpretar se estivermos de olho atento, como foi o caso do comandante...(..)
    in
    A Viagem do Elefante , de José Saramago, pag.67 Será que tem andado de " olho pouco atento", Eduardo ?

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    Respostas
    1. Bom livro esse..... Pegunto-lhe eu quem é o personagem que representa josé saramago no mesmo.......

      É evidente as alterações de narração que muitas vezes passam para o discurso directo....

      Eu digo que a personagem do saramago é o condutor do elefante e muitas vezes a dualidade ( Condutor e elefante )

      Ainda não acabei de o ler, mas lá chegarei

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  2. O sentimento do país/eleitorado sobre os assuntos que dizem respeito a toda a sociedade evoluem em cada momento. Esse sentimento, não será mais que a superior clarividência do eleitorado, que resulta de uma soma de interpretações e de sentimentos individuais. A cada hora que passa cada indíviduo perante a sua vivência que é única, reage aos estímulos, concorda ou muda de opinião sobre um determindado assunto. O mesmo acontece relativamente ao grau de satisfação para com as decisões e atitudes dos nossos governantes.
    Claro que quem votou PS, queria que Sócrates fosse PM, mas será que o mesmo se pode dizer de quem votou POUS, PNR, MMS, etc? Será que quem vota nos pequenos partidos não pretende transmitir uma mensagem de insatisfação com o status quo?
    O encanto da democracia é também esse. Quem vota PS, quer que Sócrates seja o PM, mas aceita, dada a proporção dos que pretendiam esse cenário relativamente ao todo, isso não é possível e em consequência dessa mesma proporção, ele terá de negociar.
    Quendo se diz que o povo é sábio sou levado a discordar, nomeadamente em relação a algumas situações, mas que a soma dos seus sentimentos é soberana, disso não temos dúvidas. Talvez esses comentadotes a que se refere confundam estas duas vertentes da mesma realidade, a sabedoria e a soberania.

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