Dr Manuel de Oliveira Perpétua

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O Rotary Club de Porto de Mós vai promover, no próximo domingo, uma homenagem a uma personalidade marcante, a quem Porto de Mós muito deve: o Dr Manuel de Oliveira Perpétua.


Uma iniciativa de louvar. Porque o Dr Manuel Perpétua merece todas as homenagens (Porto de Mós nunca conseguirá homenageá-lo tanto quanto lhe deve), e porque ele próprio foi rotário, fundador do primeiro Club em Porto de Mós, nos anos 50 e, depois de extinto, membro activíssimo noutros clubes da região.


Estou, no entanto, mais interessado em falar do Homem e do pedagogo que Porto de Mós não poderá nunca esquecer nem cansar de homenagear. Seja em regime de pompa e circunstância, de cerimónia pública, seja num simples registo intimista, como este, que mais não pretende que transmitir aos portomosenses mais novos a admiração, e o respeito profundo, de toda uma geração que teve a rara felicidade de poder aprender, e de se poder formar, com um Homem da dimensão do Dr Manuel Perpétua.


Sou um dos muitos que tiveram esse privilégio! E, hoje, quase 40 anos depois, uns vividos com grandes mestres académicos e outros com grandes profissionais das mais diversas áreas, com grandes colegas e grandes amigos, posso garantir que foi o Homem que mais marcou a minha formação. Na construção do meu edifício de valores, no conhecimento que me abriu novos conhecimentos, na estruturação do meu pensamento, no primado do sentido cultural da vida, na clandestina construção da consciência política…


Quis o acaso que tivesse a felicidade de, no meu processo de construção, encontrar um mestre como o Dr Perpétua. De mais rara felicidade foi, contudo, a oportunidade desse encontro. Andava pelos meus 17 anos, naquele tempo a idade fértil da aprendizagem.


Acredito que o tenha encontrado no tempo certo para aprender com ele uma boa parte do que tinha para nos ensinar. A infância já tinha ficado para trás, com tudo o que de desconforto a escola representa(va) naquela fase. A exigência e a disciplina já não eram uma imposição ditatorial de um espaço assustador e de um tempo escuro. Então, aos 17 anos e nos sexto e sétimo anos do liceu da altura, eram apenas condições naturais de um espaço de conhecimento e de um tempo de aprender a ser homem.


As matérias, as disciplinas, eram interessantes: História, Psicologia e Filosofia. Que ele sabia tornar ainda mais interessantes! Mas, se não tinham interesse nenhum, como era o caso da famigerada Organização Política e Administrativa da Nação (OPAN, como lhe chamávamos como que antecipando o actual mundo das siglas) ele sabia exactamente como torná-las tão ou mais interessantes que as outras. E passávamos, então, quase todos os meses do ano lectivo aprendendo coisas novas e interessantes. Quase todos, porque, no último, ele dizia: “Bom, agora temos que nos preparar para o exame; toca a estudar o livrinho, porque o exame é feito disto e não do que temos andado a falar”. Pois, é que era proibido falar do que tínhamos andado a falar!


Para quem não viveu esses tempos, não é fácil imaginar a importância do Colégio em Porto de Mós. O Colégio, tal era a excelência, trouxe para Porto de Mós gente de todo o país, de Norte a Sul, das ilhas às então colónias. O que toda essa gente trouxe e levou permanecerá para sempre como património de Porto de Mós. Todavia, património maior ficou com os portomosenses, a quem o Colégio abriu as portas da educação, num tempo em que a educação era privilégio de alguns e não direito de todos. Em que o ensino público secundário estava disponível, para apenas alguns, nas capitais de distrito e pouco mais. E em que os acessos e a mobilidade nada tinham a ver com a actualidade.


O Dr Perpétua fez ensino público num Colégio Particular (como então se dizia, em vez do actual privado). Colégio que se tornaria efectivamente público, na primeira escola pública do ensino secundário em Porto de Mós, em 1973 quando, pela mão da reforma “Veiga Simão”, desencadeada a partir da primavera Marcelista, o Estado adquire aquela magnífica infra-estrutura, hoje um verdadeiro ex-libris da arquitectura em Porto de Mós, dando continuidade à nobre missão do Dr Manuel Perpétua.


Obrigado Dr Perpétua. E continue connosco por mais muitos anos, porque continuamos a precisar de si!


 

Comentários

  1. Eduardo,
    Já todos ouvimos falar muitas vezes do Dr. Perpétua, mas o seu relato impressionou-me.
    De facto alguém assim merece sempre ser lembrado ao longo do tempo.
    Bem hajam pela homenagem

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  2. Há professores que não esquecemos, mas também há alunos que são lembrados com carinho. Aconteceu !Acontce. Acontecerá. Tivemso a sorte de podermos fazer o pleno.

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  3. Li e reli este texto que dá pano para mangas:

    Relação professor aluno e vice versa;

    Capacidade professor em tornar disciplinas "secas" interessantes e ir ao encontro das expectativas dos alunos, superando-as mesmo;

    Capacidade de transmitir valores que perduram pela vida;

    Visão em termos de ensino num tempo obscuro;

    Incapacidade actual, de quem pode, em ter visão para ter um ensino de excelência em Porto de Mós.

    Um belo texto sobre uma pessoa que não conheci.
    A vida é feita de sentimentos e emoções, todos nós temos recordações deste ou daquele professor.Fazemos bem de vez em quando "os visitar e acarinhar" nas nossas memórias.
    abraço Eduardo

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  4. Bom dia.
    Texto excelente para um Professor excelente.
    Lidei também com o Dr. Perpétua e dele só boas recordações, quer como professor e educador quer como homem.
    O Dr. Perpétua deve perpetuar-se na memória de todos os portomosenses.
    Armindo Vieira

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  5. Estava para ficar apenas algum tempo.... ficou até ao fim. Apesar da debilidade física evidente, é ainda senhor de uma memória fabulosa que ainda lhe permitiu identificar sem hesitação o nome de todos os presentes. Vi lágrimas nos olhos de alguns e o brilho da saudade de outros tempos. Gostámos de estar juntos outra vez . E isso é a nossa maior felicidade.

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