O aproveitamento da ignorância

Por ocasião do trágico terramoto ocorrido no Haiti, a impotência humana perante os elementos vêm mais uma vez ao de cima. Talvez por defeito de fabrico, a raça humana procura sempre uma causa para todas ocorrências não dependentes da sua vontade. Hoje em dia já existe explicação para os fenómenos sísmicos mas a sua previsão, e ainda menos o seu controlo, não são de todo possíveis.


 



No passado quando os conhecimentos científicos não eram suficientes para explicar cada fenómeno recorreu-se à esfera metafísica.


 


Ao ler o post do Eduardo sobre esta interpretação lembrei-me de uns excertos de leituras sobre o Terramoto de 1755 que aqui partilho convosco.


 


O medo irracional do povo, em parte estimulado pelo fanatismo religioso, aflora a cada passo na literatura portuguesa sobre o terramoto. Tremer e temer tornam-se sinónimos. A leitura do momento, organizada pelo providencialismo católico, inculca um forte sentimento de culpabilização. A palavra de Deus, tomada como extensão da Terra em furor, tinha um duplo significado, punitivo e misericordioso. Gabriel Malagrida, por exemplo, assegurava, no Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto (1756), que só por castigo a face da omnipotência divina se tornaria tão horrenda. Hereges, judeus e católicos, todos eram responsáveis pela vingança implacável de Deus. A causa próxima do flagelo radicava, em seu entender, nos mundanos e profanos modos da vida urbana, com os seus “teatros, as músicas, as danças mais imodestas, as comedias mais obscenas, os divertimentos, as assistências aos touros, sendo tanto o concurso, que enchiam as praças, e as ruas todas; e as igrejas, nas festas sagradas, nos sermões, nas missões apostólicas, por mais fervorosas que fossem não aparecia uma alma”. (...) Outros oradores, disputando a fama do célebre jesuíta, foram ouvidos e idolatrados pelo povo. Cabem neste grupo Manuel Macedo Malafaia, que fala de um Novo Terramoto nos remorsos da consciência (1756) e Fr. Manuel da Epifania, que menciona no Portugal consolado e instruído com as vozes de Jesus Cristo (1757) a promessa do filho de Deus em reedificar a cidade depois de resgatadas as culpas dos seus habitantes. (...) A mensagem era simples. Para que a Terra não mais vacilasse era preciso deixar de pecar e fazer penitência.


 


O Terramoto da 1755 – Lisboa e a Europa, de Ana Cristina Araújo


 


Acrescento que a Universidade de Coimbra em 7 de Fevereiro de 1756 elegeu São Francisco de Borja como protector oficial do reino e domínios de Portugal contra os terramotos.


 


Ainda outro excerto:


 


«Do cimo de púlpitos improvisados ao ar livre, os padres proclamavam que o terramoto, as inundações e os incêndios não eram mais que uma pequena amostra da ira que Deus ameaçava descer sobre aqueles que não se arrependessem. Alguns perguntaram porque é que Deus tinha, então, poupado a prisão e o bairro da prostituição, ao passo que destruíra praticamente todas a igrejas apinhadas de fiéis.»


 


A Primeira Aldeia Global, de Martin Page


 


Sobre o Terramoto do Haiti, Hugo Chavez já arranjou uma explicação visionária para o sucedido.


Eu confesso que estou a estranhar ninguém ainda ninguém ter associado o Terramoto do Haiti ao aquecimento global (ou arrefecimento, ou lá o que é), à conferência de Copenhaga ou aos movimentos de capital especulativo. Mas ainda vamos a tempo de ouvir algo do género.


 


Comentários

  1. Futebolesmente escrevendo, acho que fez uma grande jogada de chutar para corner, mesmo sem adversário por perto.
    Sera´que o Hugo Chaves tem lido os seus post.s de Futebolês e como bom jogador numa equipa de ignorantes, aprendeu de imediato que algumas jogadas e comentários analiticos das mesmas, são mesmo para engana tolos e ignorantes ?
    Oh Dr. Eduardo Louro, então a Venezuela é o socialismo do século XXI ?! Parece que as teorias económicas estão subvertidas na sua análise, pois não é por haver desvalorização de moeda que se está perante uma crise. É antes de tudo uma prática do sistema capitalista para dominar ou amortecer relações de trocas(sobretudo de comércio externo) que determinado país pratica com os seus parceiros económicos. Será que é o capitalismo de cariz socialista que o Dr. pensa existir na Venezuela. ?
    É que nacionalizar não quer dizer socialização. Veja o que aconteceu a leste da Europa ou o que o governo Sócrates fez em relação ao BPN !.

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    1. Espero que não levem a mal entrar na conversa, mas a nacionalização do BPN é e será recordada como uma das faces do socialismo de Sócrates. Numa economia liberal como a nossa devia ser, o BNP seria simplesmente deixado cair e os escandalosos números envolvidos nunca seriam suportados pelos portugueses desta e da próxima geração. Os vários milhares de milhões de euros são um custo da governação socialista. Caricato é depois ouvir o governo justificar a nacionalização com a protecção das poupanças dos clientes e quando se muda de canal vemos os clientes do BPN barricados na Agência de Leiria e pedir o reembolso das suas poupanças.
      Regressando a Chavez, tenho um amigo que regressou recentemente da Venezuela e vou convida-lo a escrever sobre o Socialismo Bolivariano da Venezuela visto por dentro, os relatos pelo telefone prometem.

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    2. Como é visível coloquei a expressão (socialismo do século XXI) entre aspas. A expressão não é minha, circula por aí. Fez o seu caminho e é aplicada ao caso Venezuelano que, como se sabe, tem subjacente uma determinada política redistributiva
      que me vou agora dispensar de comentar.
      O regime de Chavez não se enquadra em nenhum “ismo” que não seja despotismo combinado com “maluquismo”, pelo que sobre socialismo ou “capitalismo de cariz socialista”, como refere, estamos conversados.
      Sobre a desvalorização da moeda (quem sabe se não lançará mão dela para vender o seu petróleo, já que não tem mais nada para exportar???) deve notar-se que (independentemente de todas as relações que possam ser estabelecidas) eu não a relacionei com crise nenhuma, mas com as “dificuldades do povo venezuelano”, as tais que o homem quer esconder com os disparates que teoriza, como os que estavam em apreço.
      Ó Sr Carvalho, o que aconteceu com a nacionalização do BPN já todos percebemos, mas diga cá à gente o que é que aconteceu a leste da Europa: afinal aconteceu por lá socialismo ou não?
      Adianto-lhe a minha resposta: eu acho que não, mas sempre achei. Mas, já agora, gostaria de conhecer a sua.

      Um abraço para si.

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