DESPEÇO-ME DE TODOS OS LEITORES DO "VILA FORTE", COM AMIZADE
Quando fui convidado para fazer parte do corpo editorial do "Vila Forte" hesitei bastante, por diversas razões, algumas das quais tive a oportunidade de expor no meu texto de apresentação aos leitores. Apesar de não ser frequentador da "blogosfera", incluindo o Vila Forte, não desconhecia as preferências partidárias dos seus editores. Contudo, a vontade do então corpo editorial de o alargar a outras maneiras de olhar e de ler a vida e a novas temáticas, convenceu-me a aderir. Naturalmente, também sabia que o "Vila Forte "nunca foi entendido pelos editores como uma entidade mas como um espaço onde cada um dava largas às suas convicções, aos seus estados de alma, aos seus humores, aos seus encantos e desencantos", como muito bem me explicou o Eduardo Louro recentemente o qual, aliás, foi quem lançou o meu nome para a mesa no sentido de ser convidado para nela me sentar. Neste enquadramento, fui publicando os meus posts sem grande incómodo, ou seja, sem que as posições dos colegas editores me chocassem, tanto mais que escrevia para os meus eventuais leitores e não para os colegas editores, conforme combinado em termos de "estatuto editorial".
Acabei por achar interessante esta forma de comunicação que nos traz reacções rápidas e desinibidas dos leitores, obrigando-nos a pensar na diversidade de opiniões que recebemos num curto espaço de tempo e, em consequência, a avaliar a justeza ou a pertinência da nossa própria opinião, relativamente às opiniões dos outros. Se alguma coisa me incomoda na vida é pensar que, um dia, poderei convencer-me que sou "dono" de alguma verdade, seja ela qual for. Sou apenas "dono" das minhas ideias, das minhas convicções e do meu código de valores pessoal e, evidentemente, não espero (nem quero) impôr esse meu código pessoal a ninguém. Naturalmente, se acredito nele, tento convencer os outros pela persuassão intelectual e nunca pelo insulto e, muito menos, por alguma atitude autoritária, se a pudesse ter. A verdade única em que todos têm que acreditar sob pena de serem ostracizados é uma atitude própria do totalitarismo e não da democracia.
Assim, vejo com muita apreensão o que se passa actualmente no nosso País. Parece que existe apenas uma verdade e, quem a contestar, entra numa espécie de "lista negra" dos que conspiram contra o "Estado de Direito". Os juízes passaram a ser os jornalistas e os políticos. Os verdadeiros juízes a quem compete julgar, se não alinham pelo mesmo diapasão, são considerados cúmplies dessa pretensa conspiração em curso contra o Estado de Direito, mesmo que sejam as mais altas figuras do Poder Judicial, como o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça ou o Procurador Geral da República. Os políticos felicitam um jornal por não cumprir uma decisão judicial, proclamam no Parlamento Europeu que Portugal não é um estado de direito e uma deputada do BE apresenta como prova de falta de democracia o facto de o Primeiro-ministro não ter impedido uma providência cautelar contra um jornal(?!). Um ex-Bastonário da Ordem dos dos Advogados chama publicamente "aldrabão de feira" ao Primeiro-ministro, numa linguagem de vulgar "carroceiro". A minha idade "obrigou-me" a viver até à idade adulta no fascismo e, nessa época de trevas,é que o Governo mandava nos Tribunais, a PIDE condenava pessoas, sem provas ou em julgamentos fantoches, à prisão e ao degredo por não aceitarem a verdade oficial e a Censura encarregava-se de não permitir a liberdade de expressão. Não me parece que estejamos, hoje, nesta situação. Portugal está doente, muito doente, no meu entendimento. Nenhum julgamento por quem de direito ainda foi feito aos pretensos factos imputados ao Primeiro-ministro, ao contrário, as declarações de quem tem prerrogativas constitucionais para o efeito, negam esses pretensos "crimes" contra a liberdade de expressão por parte do Primeiro-ministro. Mas este já foi julgado e condenado na praça pública e não são admitidas contestações ou recursos a essa decisão. Se calhar, não estamos mesmo num Estado de Direito mas numa praça pública da Idade Média cheia de populaça ululante que vai assistir à morte na fogueira de uma mulher só porque alguém lhe apontou o dedo, chamando-lhe bruxa.
Por isso, fiquei pasmado com o lançamento de um abaixo assinado no "Vila Forte" pelo colega editor Paulo Sousa a 8 de Fevereiro, sem qualquer consulta ou informação prévia ao corpo editorial do blog. Para mim, um abaixo assinado não é a mesma coisa que um post. Aceito, naturalmente, que o seja para os restantes editores do Vila Forte. Mas, como disse, tenho convições, valores e o meu próprio código de conduta que não quero impor a ninguém; mas quero viver de acordo com esse código de valores que sempre norteou o meu comportamento pessoal e as relações com os outros. Não concordo com a campanha orquestrada que se vive em Portugal para desgastar o Primeiro-ministro sem serem apresentadas alternativas. E a alternativa, num estado democrático, é a apresentação de uma moção de censura ao Governo no Parlamento, digam o que digam os políticos, incluindo alguns do PS, que acham não ser caso para isso. Agora, que a extrema esquerda está unida à direita num mesmo ideal, seria fácil aprovar essa moção de censura, provocar eleições e eleger um novo Parlamento. É assim que funciona a democracia e não com campanhas através dos órgãos de comunicação social. O que não concordo é que queiram criar uma situação de instabilidade política grave em Portugal, num momento de grandes dificuldades e ameaças para o País, sem que aceitem assumir as correspondentes responsabilidades. É o que povo chama "querer sol na eira e chuva no nabal" só que, entretanto, vão fazer apodrecer o milho e deixar secar as hortaliças. Nesse momento ficarão contentes mas os portugueses terão as arcas vazias e terão de esperar para a próxima colheita (se tiverem dinheiro para as sementes ou se arranjarem algum comerciante que lhas venda fiado, mesmo que seja ao dobro do preço).
Como não me sinto bem neste contexto, resta-me ir embora. Não quero qualquer ligação a organizações, de qualquer tipo, que façam duvidar da minha posição pessoal sobre estes acontecimentos. Não apenas não concordo com o que se passa como me causam nojo intectual. Como qualquer cidadão, estou no meu direito de pensar pela minha própria cabeça e frequentar apenas as esplanadas onde me sinta confortável. Sem qualquer amargura ou beliscadura nas relações pessoais com os outros editores do Vila Forte, naturalmente.
Fico, contudo, com saudades dos meus leitores a quem agradeço a paciência de me terem lido. Em especial, agradeço àqueles leitores que comentaram os meus posts, concordando ou discordando: aprendi com todos a pensar melhor antes de transmitir publicamente as minhas ideias. Gostaria, para terminar, de explicar porque não respondi a todos os comentários que fizeram aos meus posts: uma questão técnica que não consegui resolver tornava o meu computador muito lento quando estava a responder aos vossos comentários. Escrevia duas letras e o computador parava, aquecia e só voltava a trabalhar mais tarde. Era absolutamente impossível esperar tanto tempo.
Um abraço para todos!
Manuel Gomes
Adeus.!
ResponderEliminarManuel,
ResponderEliminarQuando soube da sua intenção de deixar de ser editor do Vila Forte fiquei surpreendido. Naturalmente que respeito a
sua decisão mas fico com muita pena em deixar de ter os seus textos à terça feira às 14h00.
Como sabemos, mais que uma entidade una e indivisa, o blog Vila Forte é um espaço amplo onde há arrumação para opiniões diversas, sendo o debate franco aquilo que mais apreciamos.
Apenas uma pequena nota. O abaixo-assinado/petição não foi lançado pelo Vila Forte, nem por mim próprio (não tive essa visão e ousadia), mas foi simplesmente publicitado por mim.
Termino dizendo que aprecio o seu estilo de escrita e esperava que um dia escrevesse sobre algo que sei que gosta muito e que é a Ópera, género musical aliás que nos juntou pela primeira vez. O Vila Forte e a Vila Forte precisa de saber apreciar Ópera, assim como outros géneros ditos eruditos mas que até eu, que sem o ser, gosto.
O Vila Forte e a Vila Forte precisa de mundo e precisa de vivência e isso é também o que nos acrescentava.
Como disse tenho pena de deixar de o ler aqui, mas será sempre um prazer reencontrar-mo-nos por aí.
Aceite um abraço
Paulo
Foi um gosto conhecê-lo.
ResponderEliminarAbraço e a vida continua...
Até breve... e até sempre!
ResponderEliminarE logo num dia de carnaval...
ResponderEliminarApenas para deixar aqui um abraço ao Manuel Gomes. O resto já lhe disse em sede própria e ficou também dito na Nota Editorial acima...
ResponderEliminarClaro que, como sabes, gostaria que continuasses a valorizar este espaço...
Muitos e muitos "pseudo" políticos e "fazedores" de opinião deveriam ler com muita atenção e cuidado esta postagem do meu Amigo Manuel Gomes, homem de carácter verdadeiramente democrático, livre e responsável.
ResponderEliminarMas, infelizmente, e à custa deste povo já bem sofrido, preferem-se as lutas "intestinas" pelo poder usando meios nada dignos para o conseguir.
Que importa que este Povo mergulhe em mais uma crise política que custará milhões ao erário público? Para eles, absolutamente nada uma vez que o único objectivo é pessoal e corporativo.
Ao meu amigo Manuel Gomes, Homem íntegro e livre deixo o meu grande abraço Amigo e Solidário.
Alzira Henriques
Há muitos anos, sei de certeza certa, que homens como tu, não vacilam nos principios e nas honras verdadeiras da palavra dada. No pensamento, sem reservas de comportamento perante opiniões diversas e até antagónicas. Porém, nos tempos que correm neste País, essa postura tem custos enormes para quem caminha nessa estrada. A estrada dos valores éticos, camaradagem e honestidade.
ResponderEliminarSobre as razões da tua mágoa, sei bem entender este momento presente, mas como imaginas, eu também vou resistindo à tentação de ver tudo pelo mesmo canudo. Infelizmente em Portugal, muito do que se diz e escreve é notoriamente filtrado pelos directores e chefes de redacção dos meios de comunicação social, sejam eles televisão, rádio, revistas ou jornais.
Muitos dos que agora falam e escrevem sobre liberdade de informação, pensam que não há memória em Portugal, julgando que aquilo que disseram há uma dezena de anos sobre esta matéria, caiu no esquecimento colectivo. Esquecem-se nomeadamente, quanto ao nível mesquinho da mixordice politica, da tentativa permanente de passar mentiras por verdades e omitindo grande parte das vezes o sentido formativo e informativo e ainda na criação da actividade critica do cidadão, quanto a matérias de cultura informativa, opinativa ou de análise social e politica.
Como sabes, não defendo Sócrates e contesto a sua politica e a do PS, porque do meu ponto de vista tem permitido situações verdadeiramente leoninas a favor do grande capital e desprezo para o factor trabalho.
Não alinho é em manifestações tipo "vem aí o inferno" que os tão brilhantes paladinos da liberdade de imprensa e de opinião vieram reclamar em abaixo assinados, tipo "Senhoras de bem(figurado) argentinas" a bater tachos e panelas em manisfestação arruaceira, para ajudar a abrir caminho à ditadura.
Num normal ciclo politico, não se importam nada com a falta de isenção e pluralidade de opiniões e posições politicas sobre as posições politicas e de organizações sociais, argumentando sempre que o mercado sabe ditar as leis. Mas as tais liberdades informativas e opinativas não são critério a observar quando abrem portas ao pluralismo verdadeiro e contraditório. E até alguns juízes e magistrados do Ministério Público, também já começam a gostar de "postar" sobre qualidade de informação e liberdade de imprensa, esquecendo a prioridade de reserva enquanto os casos não sejam julgados( veja-se o caso do Euro-just).
Um abraço
...ó homem não se zangue com o mundo! Nos reinos do marxismo, dos camaradas e trabalhadores (como se todos nao fôssemos!?) nao havia liberdade de expressao. A liberdade de expressão é para todos os cidadãos, todos. Não pode ser é a liberdade da chacota e da calhandrice.
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