Futebolês #16 Encurtar o campo


Terminava a última edição desta rubrica, na passada semana, com uma referência ao segundo golo, e o da vitória, do Porto no seu jogo com o Arsenal, especulando sobre qual seria a pressão – o tema era então a Pressão Alta – se porventura aquele golo tivesse sido validado, não a favor, como foi o caso, mas contra o FCP. Não é para retomar essa hipótese especulativa que então deixei no ar que começo o tema de hoje por este episódio. Mas é para o introduzir!



Muitos foram os que defenderam toda a legitimidade desse golo sustentada na sua legalidade que, como se sabe, são coisas bem diferentes. Bem sabemos que há muita coisa que é legal sem que seja legítima, e vice-versa. Neste caso o que estava em causa era a legitimidade, não a legalidade. O que estava em causa era a lealdade! O fair play, de que aqui tanto se tem falado e que cabe aos intervenientes no jogo, aos agentes desportivos, defender. E aqui, ao contrário daquilo que serviu de pretexto para uma manifestação desta semana à porta da Liga Portuguesa de Futebol – não passou de um pequeno ajuntamento de um grupo de amigos de uma das pseudo-vedetas do comentário televisivo, daqueles de que já aqui falamos, para quem o futebol serve de trampolim para tudo e mais umas botas, mas enfim, se houve quem lhe pretendesse chamar manifestação… – ou mesmo para ameaças de impugnação do campeonato, não há qualquer dúvida que jogadores do FCP e árbitro são intervenientes no jogo, agentes desportivos. Caber-lhes-ia portanto, e em última instância ao árbitro, defender esse valor da lealdade que o futebolês universaliza como fair play.



Mas, como dizia há uns anos o hoje treinador do Benfica, que pode ter jeito para muita coisa menos para filósofo, o fair play é uma treta. A lealdade nada vale, ganhar é tudo o que conta. Não importa como!



Sendo esta a realidade do futebol seria natural que entendêssemos a a expressão do futebolês de hoje na verdadeira acepção da palavra: encurtar o campo significaria tirar alguns metros ao comprimento do campo. Para disso tirar proveito, para ganhar vantagem com vista a alcançar a única coisa que conta: ganhar. Ainda há bem pouco vimos um guarda-redes (Kim Christensen, o guarda-redes dinamarquês do IFK de Gotemburgo, que viria a confessar-se useiro e vezeiro) ser apanhado em flagrante pelas câmaras da TV a encurtar não o campo mas a sua baliza…



E a verdade é que isso, mexer nas medidas do campo, até é prática mais ou menos corrente: é que não há medidas obrigatórias e de definição universal para o rectângulo de jogo; há sim medidas regulamentares que podem variar entre 90 e 120 metros de comprimento e 45 e 90 metros de largura, sendo que os organismos internacionais (FIFA e UEFA) exigem, para os jogos internacionais da sua jurisdição, um comprimento entre 100 e 110 metros e uma largura entre 64 e 75 metros.



Portanto é mesmo possível, através da manipulação das medidas do rectângulo, encurtar ou estender o campo, alargá-lo ou torná-lo mais estreito. Mas não é, nem a exemplo do que temos visto (nunca é o que parece sem que nunca deixe de ser parecido) poderia ser, esse o conceito futebolês de encurtar o campo!



Encurtar o campo tem a ver com a redução de espaços mas no sentido de espaço táctico de jogo, com o posicionamento da equipa. Com a pressão alta mas fundamentalmente com as linhas subidas, com o bloco defensivo bem subido. Encurtar o campo pode decorrer de uma estratégia impositiva, de uma atitude mandona no jogo, como também se diz, que tem em vista reduzir os espaços a percorrer até à área adversária, encurralar o adversário não lhe deixando nem espaço nem tempo de recuperação. Mas pode também decorrer de uma estratégia reactiva sustentada numa táctica de blocos juntos e baixos, que visa a redução de espaços entre linhas com vista a dificultar os movimentos de construção do adversário. É normalmente complementada por uma estratégia de exploração do espaço nas costas do adversário através de transições rápidas feitas de lançamento longos, verticais ou diagonais, para a velocidade de um ou outro jogador particularmente dotado nesse capítulo (repararam no que aqui vai de futebolês num simples parágrafo?).



Encurtar o campo é pois uma expressão própria daquilo a que os intelectuais do futebolês chamam dimensão táctica do jogo. Própria da artimanha e da inteligência dos intervenientes no jogo e de tudo aquilo que faz com milhões por todo o mundo se tenham apaixonado por um jogo que tem tanto de simples como de espectacular. Não faz parte das manobras que lhe retiram verdade e lealdade, que desvirtuam a realidade e que manipulam sentimentos explorados a partir do imenso universo de emoções que o futebol consegue parir.



Uma nota final para o Sporting que encurtou o desânimo dos seus adeptos. Uma bela exibição e uma brilhante vitória que os sportinguistas, jogadores e adeptos,  já mereciam!

Comentários


  1. Bom dia ..

    Começando pelo inicio do post , a dita junção ou vigília , não passou de mais uma manifestação ridícula de um pequeno grupo de pessoas, onde se incluía o já muitas vezes falado futuro presidente do Porto, Rui Moreira.

    Vir para a rua reclamar contra uma lei que foi proposta e aprovada pelo seu clube, das duas uma ou estão a gozar com o Povo ou então é a mais pura e clara estupidez ...

    Para além de reclamarem de uma lei elaborara e aprovada pelo Porto, reclamar de um castigo de um jogador que agrediu um cidadão ... agrediu um segurança é no mínimo ridículo ...

    Mais, se o segurança e a empresa que pertence estão contratados para fazer a segurança do evento, neste caso um jogo de futebol, não tenho a certeza se o seu estatuto está equiparado a um agente de autoridade, pelo que a pena de 4 meses (INFERIOR AO PREVISTO NA LEI) ou 6 meses é pouco pois até poderia dar origem a prisão ...

    Comparando, mais uma vez este caso a outro semelhante, CANTONA , está tudo dito ... 9 meses para um 4 para outro, sendo que na altura antes do castigo o Manchester castigou em 4 meses aquele que na altura era só o seu melhor jogador ... tudo dito ...

    Quanto ao encurtar o campo, na minha opinião, é algo que as ditas grandes equipas têm de fazer em todos os campos, ou seja, falo do Benfica que me é querido, tem de chegar a qualquer campo (talvez excepto Porto e Sporting) e dominar, pressionar , encostar equipas que são teoricamente mais fracas, com menos recursos financeiros, humanos e físicos, ou seja, a pressão tem de ser constante.

    Permita-me aqui deixar a distinção entre dois termos:

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  2. Não sendo tema de Futebois, gostaria aqui de chamar a atenção de um caso muito interessante. Decorre como é sabido os Jogos Olimpicos de Inverno na Cidade de Vancouver no Canada. Como foi noticiado ficou marcado no incicio pelo falecimento num treino de um atleta.
    Mas como curiosidade foi a demonstração de muita coragem e patriotismo a uma atleta de patinagem livre no gelo do Canada. Conquistou ontem perante 14-mil Espectadores presentes na Arena Pacific Coliseum e de milhões pelas TVs a medalha de Bronze. Vive desde os primeiros dias de prova com o Falecimento da sua Mãe,(AVC) quando ela se encontrava já em Vancouver no seu estágio de preparação.
    Foi convidada de honra para desfilar no encerramento dos mesmos no próximo Domingo regressando depois a casa, estando agendado para a próxima semana o Funeral da sua Mãe
    É de seu nome Joannie Rochette nativa da Provincia de Quebec.

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