A conversão da China?

Nas zonas rurais do centro da China, muitos idosos vivem na miséria material e afectiva. No passado, eram os jovens quem cuidava dos velhos. A chegada da economia de mercado e a migração das gerações mais jovens para as cidades, introduziram modificações profundas na organização social e familiar, assim como nas tradições.


Para agravar este cenário os idosos chineses não têm acesso a seguradoras privadas nem a associações de beneficência, que quase não existem nos meios rurais. O Estado também tem dificuldade em difundir um sistema de protecção social.


Neste contexto, as igrejas cristãs transformaram-se, de repente, em grandes prestadores de cuidados de saúde às pessoas de idade.


Nalgumas aldeias do interior - pouco frequentadas durante a semana - animam-se aos sábados e domingos, quando o movimento aumenta com mulheres e velhos a deslocarem-se para a missa.


Na aldeia de Nangu, na província de Henan, um terço dos habitantes são cristãos. Destes, mais de 80 por cento são mulheres.


"Na nossa aldeia há uma septuagenária que sofre de traqueíte crónica. O filho foi trabalhar para a cidade e a nora não vive com ela. Todos os dias vêm crentes acender-lhe o forno, preparar-lhe uma refeição e limpar-lhe a casa. Acho isso verdadeiramente espantoso!", explica o secretário da célula local do Partido Comunista Chinês.



 


Como a maioria dos jovens deixa a aldeia a partir dos 16 anos, não é fácil recrutar gente para o Partido. A aldeia de Zhongwang tem 56 militantes, 30 dos quais com mais de 60 anos. Desde 2005, o Partido só registou duas novas adesões nesta aldeia, ao passo que, no mesmo período, a religião cristã angariou 20 novos crentes. "Na nossa aldeia, mais de metade das pessoas idosas são crentes", diz Fan Xiangqi. "Quando alguém tem preocupações, vamos à igreja interceder a seu favor e rezar por ele. Quando certas famílias de fiéis passam dificuldades financeiras, a paróquia intervém na véspera do ano novo para as ajudar, porque as receitas da igreja provêm de donativos dos fiéis e devem também ser usufruídas por eles. Há paroquianos que dão directamente esmola às famílias necessitadas e a igreja exige que essa acção seja sincera e espontânea. Todos os anos, o Natal marca o apogeu das actividades da comunidade cristã. Vamos à igreja para representar cenas da Bíblia e dançar."


Se há tantas mulheres crentes, também é porque elas raramente se aventuram a ir além dos limites da aldeia e vivem como rãs no fundo de um poço. Nas zonas rurais onde o machismo reina sem entraves, o cristianismo - que veicula uma imagem de grande elevação da mulher - permitiu, pouco a pouco, uma melhoria da condição feminina, recuperando a auto-estima das mulheres e fazendo nascer sentimentos de empatia no seio da família e entre os membros da sua comunidade em relação a elas. E isto explica a razão de haver mais mulheres crentes no mundo rural chinês.


Apesar de permitir a liberdade de culto desde 1978, o estado chinês não aceita a obediência ao Vaticano, e criou por isso a Igreja Católica Patriótica da China que obedece ao Partido. Existem no entanto muitos locais de culto 'domésticos' que vivem numa espécie de clandestinidade.


As estatísticas oficiais apontam para cerca de 22 milhões de cristãos, católicos e protestantes, mas fontes próximas das igrejas não oficiais calculam que o número poderá atingir os 100 milhões, o que corresponde a mais de 7% da população chinesa.


Será que num país que tem uma visão muita própria do conceito de longo prazo, isto poderá ser o início de uma tendência que poderá vir a mudar a China, aproximando-a dos valores ocidentais?


 


Baseado no artigo da Courrier Internacional, e num artigo da revista Nanfeng Chuang

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Gandembel

Foi um prazer estar convosco neste esplanada