"coisas de Crianças" **

“Não ligue, são coisas de criança”. Esta foi a resposta de um Director da Escola a uma mãe que se queixava das agressões de que o seu filho era vítima. Ao ver e ouvir isto num canal de TV senti uma raiva crescente. Não aceito, ninguém pode aceitar, esta ligeireza, esta desresponsabilização por parte de quem gere um espaço determinante na formação das gerações vindouras! Sejamos claros, o “bullying” não é de hoje e não se acaba por decreto. Mas não pode continuar a ser escondido e omitido. A Escola de hoje é muito diferente e mais complexa. As crianças e os jovens passam mais horas na escola. Juntam-se hoje, no mesmo espaço, crianças com 10 anos e jovens com 17, 18 anos (2º e 3º ciclo, respectivamente).


 


E não podemos ignorar que o fecho das escolas das aldeias lançou crianças num meio diferente e sem qualquer estrutura de acompanhamento para a integração das mesmas. Vencer o “bullying” não é fácil, mas não é, não pode ser impossível! Durante a discussão do actual Estatuto do Aluno, tive oportunidade de propor a criação de constituição de equipas multidisciplinares nos Agrupamentos de Escolas para, em articulação com os inúmeros organismos que existem fora da escola, pudessem ajudar a despistar situações de risco, acompanhar essas situações e promover soluções. Infelizmente, a maioria de então não aceitou esta proposta. Temos de olhar de frente para o problema. Não podemos “fazer de conta”, “encolher os ombros” ou “assobiar para o lado”. Por isso, não entendo que, nos relatórios anuais da Escola Segura e do Observatório de Segurança em Meio Escolar, os dados referentes ao “bullying” não estejam diferenciados e estejam diluídos nos crimes de ofensas à integridade física. Esconder para quê? Para se combater esta “praga” não se pode escondê-la! Toda a comunidade escolar (com a família incluída) deve ser mobilizada para a sua identificação e acção correctiva.


 


Os funcionários, os professores, os colegas e a família das vítimas devem saber ver os sinais que são evidentes: tristeza, desinteresse pela escola, perda de rendimento escolar, comportamentos de isolamento na escola, etc. E devem saber o que fazer e a quem recorrer para intervir. Os estudos dizem que apenas metade das vítimas apresenta queixa. É fundamental que as vítimas percebam que têm a quem recorrer, que podem partilhar a violência que sofrem, e para isso é determinante que os agressores sejam exemplarmente punidos. A família do agressor tem de ser envolvida no processo, de forma a se poder corrigir os comportamentos futuros pois, como diz o Secretário-Geral do Instituto de Apoio à Criança, Manuel Coutinho, “os agressores não desenvolveram valores e nem sempre têm consciência do que fazem aos outros”. A vítima e a sua família têm de ser apoiados e esse apoio tem de ser imediato quando se justifique. Acredito que se não fugirmos às responsabilidades seremos capazes de reduzir os abusos. Para isso temos de agir de forma concertada, pois o “bullying” não é “coisa de crianças” mas sim um problema de todos nós!


 


Emídio Guerreiro, Diário de Coimbra de 17 de Março de 2010


 


 ** tive a devida autorização do Deputado Emídio Guerreiro para colocar no Vila Forte este texto. Um grande bem haja para ti, Emídio.


 


Comentários

  1. Aumento da violência nas escolas reflecte crise de autoridade familiar

    Especialistas em educação reunidos na cidade espanhola de Valência defenderam hoje que o aumento da violência escolar deve-se, em parte, a uma crise de autoridade familiar, pelo facto de os pais renunciarem a impor disciplina aos filhos, remetendo essa responsabilidade para os professores.
    Os participantes no encontro 'Família e Escola: um espaço de convivência', dedicado a analisar a importância da família como agente educativo, consideram que é necessário evitar que todo o peso da autoridade sobre os menores recaia nas escolas.

    'As crianças não encontram em casa a figura de autoridade', que é um elemento fundamental para o seu crescimento, disse o filósofo Fernando Savater.

    'As famílias não são o que eram antes e hoje o único meio com que muitas crianças contactam é a televisão, que está sempre em casa', sublinhou.

    Para Savater, os pais continuam 'a não querer assumir qualquer autoridade', preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos 'seja alegre' e sem conflitos e empurrando o papel de disciplinador quase exclusivamente para os professores.

    No entanto, e quando os professores tentam exercer esse papel disciplinador, 'são os próprios pais e mães que não exerceram essa autoridade sobre os filhos que tentam exercê-la sobre os professores, confrontando-os', acusa..

    'O abandono da sua responsabilidade retira aos pais a possibilidade de protestar e exigir depois. Quem não começa por tentar defender a harmonia no seu ambiente, não tem razão para depois se ir queixar', sublinha.

    Há professores que são 'vítimas nas mãos dos alunos'.

    Savater acusa igualmente as famílias de pensarem que 'ao pagar uma escola' deixa de ser necessário impor responsabilidade, alertando para a situação de muitos professores que estão 'psicologicamente esgotados' e que se transformam 'em autênticas vítimas nas mãos dos alunos'.

    A liberdade, afirma, 'exige uma componente de disciplina' que obriga a que os docentes não estejam desamparados e sem apoio, nomeadamente das famílias e da sociedade.

    'A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara', afirma, recomendando aos pais que transmitam aos seus filhos a importância da escola e a importância que é receber uma educação, 'uma oportunidade e um privilégio'.

    'Em algum momento das suas vidas, as crianças vão confrontar-se com a disciplina', frisa Fernando Savater.

    Em conversa com jornalistas, o filósofo explicou que é essencial perceber que as crianças não são hoje mais violentas ou mais indisciplinadas do que antes; o problema é que 'têm menos respeito pela autoridade dos mais velhos'.

    'Deixaram de ver os adultos como fontes de experiência e de ensinamento para os passarem a ver como uma fonte de incómodo. Isso leva-os à rebeldia', afirmou.

    Daí que, mais do que reformas dos códigos legislativos ou das normas em vigor, é essencial envolver toda a sociedade, admitindo Savater que 'mais vale dar uma palmada, no momento certo' do que permitir as situações que depois se criam.

    Como alternativa à palmada, o filósofo recomenda a supressão de privilégios e o alargamento dos deveres.

    **recebido por mail

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  2. Pedro,

    é louvável que você e Ana Narciso continuem a falar deste tema que pelos vistos não é partilhado pelos manos juncalenses e muitos daqueles que enbarcaram no vergonhoso "perdoa-me, André". Com a frontalidade que vos é reconhecida seria interessante que dissesseem que talvez tenham defendido de forma cega quem não precisava de defesa mas se calhar de outro apoio da familia e amigos. Na idade do miudo muito pode ainda ser feito e não é a esconder a cabeça na areia ou a fazer dos seus actos, heroismo, que se consegue que tenha uma boa formaçao como pessoa.
    Ja aqui fiz o desafio e choca-me que tenha sido ignorado. Recordo este caso só mas para mostrar como tudo isto funciona e do cinismo à volta do Vila Forte. Numa situação normal esgotava comentários a começar pelos próprios autores do blog mas depois do perdoa-me, parece que o bulling virou tabu para o vila forte.

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    Respostas
    1. Como compreende falo só por mim, agradeço a justiça que me faz por não esquecer esta temática da educação.Quanto ao bullying em concreto, não sei se leu este meu texto:

      http://vilaforte.blogs.sapo.pt

      e
      sobre Des(educação) este, entre outros, basta procurar no histórico("vasculhar neste blog"):

      http://vilaforte.blogs.sapo.pt/40827.html

      Mas numa coisa concordo consigo, é mais "fácil" comentar outros textos que estes destas temáticas.Que cada um faça o seu acto de contrição, quem sou eu para dizer comentem este ou aquele post.
      Obrigado.

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    2. Margarida, num estado de direito as instituições devem funcionar: quem se sentiu lesado fez queixa, quem se sentiu injustiçado defendeu-se perante a entidade a quem todos devemos prestar contas: a Inspecção Geral da Eduação; esta produziu um relatório que se foi contestado devia ter sido tornado público. Foi?
      Estou contudo sempre disponível para reparar possíveis erros cometidos; mas por favor diga-me quais foram.
      Já chega de insinuações vagas ou totalmente personalizadas. Parece que não restou nada; nem confiança nas instituições, nem nem nos òrgãos de gestão , nem de inspecção que actuaram de acordo com a lei que temos. E alterações? Houve? Positivas ou negativas? Era interessante saber o que ficou , Margarida. Podemos saber?

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  3. Pedro e leitores do blog, gostava que lessem este post, fala de uma criança com trissomia 21, mulato e adoptado... gostaria de chamar a atenção para atitude da professora...

    http://otesourinho.blogspot.com/2010/03/gota-de-agua.html

    Jorge Soares

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  4. Penso que as medidas preventivas devem ser acompanhadas de medidas repressivas que incidam especialmente em, passe a expressão, envergonhar socialmente o agressor e o respectivo encarregado de educação.
    Trabalho a favor da comunidade seria uma ideia.

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