Manuela Ferreira Leite: a última homenagem?


MFL está de saída e de regresso ao seu cantinho no Banco de Portugal (não sei se já estará reformada), que funciona, tal como o Ministério das Finanças, de albergue dos economistas políticos, que não são exactamente os que fazem da economia política o centro da sua vida profissional mas os economistas que decidem fazer umas incursões pela carreira política. Com rede, evidentemente! Porque isso de risco e de empreendedorismo é bom   para os outros e ... para o discurso. Se alguma coisa correr mal…


 


Seria pois a hora de fazer o balanço desta sua última passagem pela política a tempo inteiro. Mas não dá! É que, sem receio de ser acusada de falta de escrúpulo em ser juíza em causa própria, já disse que foram atingidos todos os objectivos a que se tinha proposto para a sua liderança. Quando assim é, quando todos os objectivos são atingidos, não pode ficar uma réstia de dúvida sobre o êxito da missão…


 


Assim sendo, e pelo que é possível detectar à vista desarmada por quem minimamente acompanhou estes últimos dois anos, só se consegue encontrar uma explicação. Que é esta: os objectivos a que a líder do PSD se propôs para o seu mandato fazem parte da sua esfera pessoal. Nem por escutas lá chegaríamos. Traçou-os sozinha, manteve-os mais bem guardados que o segredo de justiça, não disse nada a ninguém e, agora que chega ao fim, diz que todo foram atingidos. Nem um falhou!


 


Só por evidente má fé alguém pode duvidar. E só por ainda mais evidente má-fé, e por uma enorme dose de ignorância, alguém poderá sequer ter a veleidade de pensar em fazer o tal balanço. Como seria possível se lhes falta conhecer o essencial, as balizas da avaliação que são os objectivos e as metas traçadas no seu mais profundo e respeitável silêncio?


 


Mas MFL é antes de mais uma querida. Não queria despedir-se de nós sem uma única falha, qualquer coisita, uma pequena gafe que fosse a que nos pudéssemos agarrar para darmos largas à nossa eterna má-língua, à nossa idiossincrática mania de maldizer. Para gáudio de toda a imensa maioria que a quer ver pelas costas teria de fazer uma mesmo a sério. Uma daquelas argoladas que ninguém lhe iria perdoar.


 


Pensou em qualquer coisa como parar com a democracia por seis meses. Logo concluiu que essa não, já tinha sido chão que dera uvas. Uma qualquer sobre imigrantes? “Bolas, também já gastei essa” – pensou. Pela cabeça passava-lhe ainda salário mínimo, avaliação de professores quando, de repente, lhe saiu o seu eureka: Joaquin Almunia. Sim, se ele tinha sido tão atacado por toda a gente com aquela de Portugal estar igual à Grécia, era mesmo aí que estava a chave do sucesso. Ou não fosse ela uma mulher bem sucedida que cumpre todos os seus objectivos!


 


Estava encontrada a solução. Só faltava definir os contornos. Teria que ser algo de incisivo e suficientemente provocatório, de preferência com um impacto de colisão frontal com as posições que assumira em torno do Orçamento. E onde? Numa entrevista de pouca visibilidade? No parlamento? "Já sei", rematou com ar de quem tinha encontrado a solução para salvar todas as “piquenas”empresas do país: “vou dizer na conferência da Câmara de Comércio Luso-Francesa que Portugal está rigorosamente no mesmo caminho da Grécia …"


 

Comentários

  1. Caríssimo:

    1. Em Portugal, para a politica, tem de se ser light.
    2. Educado (de acordo com o que se entende por educação por cá...)
    3. Bem falante.
    4. Look sereno.
    5. E o resto?

    Competência. Laracha mínima. Decisão.

    A Dra. F. Leite ainda pertencia a uma franja mínima de politicos que não fazem da guerra de opiniões conteúdos.

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