Mulher

Dá a surpresa de ser.

É alta, de um louro escuro.

Faz bem só pensar em ver

Seu corpo meio maduro.



Seus seios altos parecem

(Se ela tivesse deitada)

Dois montinhos que amanhecem

Sem Ter que haver madrugada.



E a mão do seu braço branco

Assenta em palmo espalhado

Sobre a saliência do flanco

Do seu relevo tapado.



Apetece como um barco.

Tem qualquer coisa de gomo.

Meu Deus, quando é que eu embarco?

Ó fome, quando é que eu como ?



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Comentários

  1. Fernando Pessoa inigualável.
    Tomo no entanto a liberdade de publicar António Gedeão:
    Mulher...nas palavras de António Gedeão:

    "Luísa sobe, sobe a calçada,
    sobe e não pode que vai cansada.

    Sobe, Luísa, Luísa, sobe,
    sobe que sobe sobe a calçada.

    Saiu de casa
    de madrugada;
    regressa a casa
    é já noite fechada.
    Na mão grosseira,
    de pele queimada,
    leva a lancheira
    desengonçada.

    Anda, Luísa, Luísa, sobe,
    sobe que sobe, sobe a calçada.

    Luísa é nova,
    desenxovalhada,
    tem perna gorda,
    bem torneada.
    Ferve-lhe o sangue
    de afogueada;
    saltam-lhe os peitos
    na caminhada.

    Anda, Luísa. Luísa, sobe,
    sobe que sobe, sobe a calçada.

    Passam magalas,
    rapaziada,
    palpam-lhe as coxas
    não dá por nada.

    Anda, Luísa, Luísa, sobe,
    sobe que sobe, sobe a calçada.

    Chegou a casa
    não disse nada.
    Pegou na filha,
    deu-lhe a mamada;
    bebeu a sopa
    numa golada;
    lavou a loiça,
    varreu a escada;
    deu jeito à casa
    desarranjada;
    coseu a roupa
    já remendada;
    despiu-se à pressa,
    desinteressada;
    caiu na cama
    de uma assentada;
    chegou o homem,
    viu-a deitada;
    serviu-se dela,
    não deu por nada.

    Anda, Luísa. Luísa, sobe,
    sobe que sobe, sobe a calçada.

    Na manhã débil,
    sem alvorada,
    salta da cama,
    desembestada;
    puxa da filha,
    dá-lhe a mamada;
    veste-se à pressa,
    desengonçada;
    anda, ciranda,
    desaustinada;
    range o soalho
    a cada passada,
    salta para a rua,
    corre açodada,
    galga o passeio,
    desce o passeio,
    desce a calçada,
    chega à oficina
    à hora marcada,
    puxa que puxa, larga que larga
    toca a sineta
    na hora aprazada,
    corre à cantina,
    volta à toada,
    puxa que puxa, larga que larga

    Regressa a casa
    é já noite fechada.
    Luísa arqueja
    pela calçada.

    Anda, Luísa, Luísa, sobe,
    sobe que sobe, sobe a calçada

    Anda, Luísa, Luísa, sobe,
    sobe que sobe, sobe a calçada.

    Para todas as mulheres um magnifico dia

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    Respostas
    1. Gosto muito deste poema de António Gedeão. Retrata de forma magnífica a vida da mulher durante muitas décadas. .

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