Sampaio, Santana e Sócrates
Ao ser entrevistado pelo Público há poucos dias, Jorge Sampaio fala pela primeira vez sobre a dissolução da Assembleia da República, que decidiu em 2004. E diga-se, não poderia escolher melhor momento para o fazer.
O Presidente que nunca chegou a prometer qualquer tipo de cooperação estratégica com o Governo PSD-CDS, e que nos momentos difíceis em que MFL tentava evitar que as finanças públicas chegassem à situação actual, lançou o célebre 'Há mais vida para além do orçamento', vem agora falar sobre o que o levou usar a bomba atómica constitucional.
Segundo diz na entrevista, não foi o 'conjunto imenso de disparates' que o levou a tomar essa decisão, mas sim a falta de legitimidade política do Governo. Estranho esta revelação, porque isso nunca foi o discurso oficial da altura e porque a legitimidade política decorria da posse dada, por si próprio, a PSL. Claro que entendo que ao dizer isto queira aliviar a pressão sobre o actual governo de José Sócrates, que apesar de ter legitimidade política já está marcado indelevelmente por um 'conjunto imenso de disparates'. É também compreensível que queira rescrever a história, tentando assim limpar as borradas que acaba por assumir na entrevista.
Mas o seu reaparecimento a falar de política é também oportuno por nos trazer à memória o 'há mais vida para além do orçamento'. Será que esta frase tão agradável à esquerda já não se aplica? Será que agora já não 'há mais vida para além do orçamento'? Olhando para o PEC concluímos que não. Como disse Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra na passada Sexta-Feira, podem acusar Sócrates de não cumprir as sua promessas eleitorais, mas não o podem acusar de não fazer o que a oposição prometeu. Depois de tanto capital político consumido a defender o TGV e as grandes empreitadas, tudo vai ficar na gaveta. É a consumação do duro choque com a realidade que até agora só os botabaixistas viam.
Além do recuo em toda a linha, implícito no PEC, o actual PM está minado pela desconfiança. Não me refiro a mim, que nunca votei nele, mas sim à sua imagem internacional e dessa forma a imagem do nosso país. O Liberation arrasou há dias José Sócrates destancando o artigo com o seguinte cabeçalho 'Rien ne va plus pour le Premier ministre socialiste, dont le nom est associé à des affaires de corruption sur fond de crise économique majeure.'
As sondagens podem contar para o xadrez da classe política, mas o nosso rating internacional e por essa via o custo da dívida pública depende da imagem que sobra de artigos como este.
Chegamos ao pântano que Guterres quis evitar.
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