A indiferença
Escrevi este texto há pouco tempo e continuo convencida que Portugal premeia quem é indiferente, quem não está para se maçar.
"O que é a indiferença? Elie Wiesel ( prémio Nobel da Paz em 1986) definiu-a assim: “ trata-se de um estado peculiar e bizarro em que a fronteira que separa a luz da escuridão, o lusco-fusco da aurora, o crime do castigo, a crueldade da compaixão, o bem do mal – se dilui”( discurso proferido a 12, de Abril, de 1999 na Casa Branca.). O tempo veio provar que esta analise à entrada do milénio era quase profética em relação ao que temos assistido durante esta década , muito em particular no meu país . Não sei se alguma vez a indiferença se vai tornar uma virtude , mas não estamos longe deste estado. Ser indiferente tornou-se quase obrigatório. A indiferença cruza-se no nosso caminho de uma forma perturbadora. E tem seguidores. Demasiados. Assiste-se a uma bulha entre crianças na rua : não são meus filhos ; segue-se em frente; o problema não é nosso. Há obras adiadas ou feitas por pressão eleitoral: “não te metas”! Só arranjas dificuldades pessoais acrescidas e o problema continuará por resolver. E a indiferença cresce , adensa-se e prospera como uma erva daninha . Só de vez em quando somos sacudidos por desgraças excepcionais como a enxurrada na Madeira , o terramoto no Haiti ou o tsunami na Tailândia. Da indiferença à compaixão demora apenas um clique no computador. Depois volta tudo à sua vidinha – indiferente -. Só com uma indiferença irracional podemos ter um Primeiro Ministro em Portugal, politicamente fragilizado ainda no governo do país. Só com uma enorme indiferença pela causa pública e pelo governo da República aceitamos sem reacção a falta de regras seguras e sustentadas em fatias do nosso quotidiano como por exemplo: a idade para a aposentação ( todos os anos muda) avaliação dos professores ( ainda não percebemos o que quer esta Ministra da Educação) avaliação dos alunos ( todos os anos há alterações e sempre num sentido facilitar a passagem ). Reagir? Para quê? Estar indiferente não traz qualquer incómodo, agrada aos chefes e pode ser confundida com submissão . “A Indiferença é mais perigosa do que a ira e o ódio” (E. Wiesel ) Porquê? Porque combatemos o ódio, censuramos o ódio, desarmamos o ódio”. Como se censura a indiferença? Como combatemos a indiferença social , política e ética? Diria que com esperança e motivação; “juntos avançamos para um novo milénio levados por um medo profundo e por uma esperança extraordinária.” Voltei a ter esperança. Esperança de que este país se rebele contra um governo que entretém mais do que governa, um governo que distribui o que não tem e prometeu o que não devia. Só a indiferença permitiu um PEC com cortes cegos e sem equidade social. 15 anos de governo socialista adubados com a indiferença atroz de um país sem esperança conduziram-nos a esta encruzilhada. Todavia eu voltei a ter esperança de que melhor é possível; é possível no plano filosófico: devolver ética à política, no plano da organização do estado, menos estado e melhor estado; liberdade de escolha; na educação e na saúde na organização social do estado, e finalmente apostar numa nova organização política da nação.
Façam favor de se rebelar."
In " Jornal de Leiria"
Ana:
ResponderEliminarDou-lhe uma novidade:
ESTE PEC ainda é suave...
Cortes a sério virão e equidade social em Portugal nao existe desde Abril...bastando estar atento (repete-se Portugal é o país da UE com maior diferenciação social... e quem o governou?)
O governo só governa com os votos dos Portugueses e a indiferença generalizada dos eleitores que não votam , nem saem dos cadernos eleitorais. a indiferença é uma doença social e cívica letal para a nação Lusa. Portanto somos todos culpados: uns porque não conseguiram apresentar-se como alternativa, outros porque em vez de governarem entreteram-nos com números de "Magalhães" matreiramente " à borla "mas realmente pagos com os nossos impostos. Até você caro anónimo também tem culpas no cartório, nem sequer ultrapassa a fronteira entre o crepúsculo e a aurora , a responsabilidade cívica e material da anónima sem rosto e sem materialidade . Mas eu estou "fora de moda ". Apresentem-se outros. Espero ainda ter tempo útil de vida para apreciar a diferença.
EliminarAna,
ResponderEliminarEste post é muito oportuno tendo em conta a nossa conversa ontem ao jantar.Pena que muitos politicos da nossa praça, cultivem esta indiferença para se eternizarem no poder e justificar o "se não formos nós ninguém aparece".
Caro anónimo
ResponderEliminarNão sei o que se passou, mas não menos consideração.
Como sou meio analfabeto informático, vou ver se remedeio o texto.
Cumprimentos.
ResponderEliminarBoa tarde,
O problema da indiferença não está apenas em quem não vota, em quem não exerce os seus deveres cívicos, pois ao não votar, ou ao votar branco ou nulo, estamos a deixar nas mãos de outros a decisão do nosso futuro.
Dirão alguns, depois de eleitos, o nosso futuro está nas mãos de outros na mesma, sim mas se todos fossemos civicamente activos a indiferença seria menor.
O problema está também nas diversas classes que "mandam" no país:
A classe política que ano após ano, eleição após eleição, vão trocando de poleiro entre si, vão dominando a administração central e local como que se de uma monarquia se trata-se, fazendo da política uma empresa familiar onde os amigos têm acesso privilegiado .
Escreveu-se aqui quando das eleições autárquicas, que quando um dos candidatos apresentou a sua candidatura, os apoiantes era nada mais nada menos, que muitos dos filhos dos candidatos da lista, demonstra a tal monarquia que limita o acesso à vida pública de pessoas possivelmente válidas (não quer dizer que os filhos deste não sejam) e demonstra indiferença dos demais.
Os sucessivos governos que mandato atrás de mandato nada fazem, nada tentam fazer, pouco ou nada querem fazer, a não ser olhar para dentro, se algo está mal paga o funcionário público, paga o contribuinte da classe média, paga enfim quem precisa de trabalhar para se sustentar e sustentar o país.
Para quando o pagamento de impostos à séria pela Banca?, para quando o pagamento de impostos pela Igreja?, para quando a penalização directa dos gestores públicos de empresas que dão milhões de prejuízo ? para quando a eliminação radical da franja da sociedade que vive á custa do orçamento de estado, seja através da atribuição de subsídios, seja com negócios milionários com o estado?
Eu pessoalmente não sou indiferente a estes assuntos, nem a outros que ficam por falar, mas mais do que isto não posso, mais do que isto não sei ou não posso fazer .... é outro tipo de indiferença ...
Cumprimentos,
Gostei desta sua reflexão.
ResponderEliminarMas, quando se olha em volta e se vê tanta irracionalidade à solta, e refiro-me não apenas à governação local e nacional, mas também à aceitação como normal da mentira dos gestores da coisa pública, à aceitação reverente do enriquecimento sem explicação, ao elogio tácito pelo sucesso sem esforço, à demonização do lucro, à perseguição dos criadores de emprego e de riqueza, à complacência por quem não se esforça... etc... a indiferença pode ser uma forma de defesa da sanidade mental. Não estou a defender os indiferentes (até porque no fundo não querem saber se alguém os defende) mas é assim que a interpreto.
Estou totalmente em desacordo: é exactamente por essa indiferença que chegámos a onde chegámos e estamos quase todos a dar em doidos!!
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