Investigação científica e serviço público*
"Quereis saber o que é investigação científica?
Pois vêde o que é um país sem ela.Então podereis analisar as misérias de que esse país é vitima, a degradação que nele se verifica, a desorganização das actividades,a falta de planos de conjunto.Em lugar dos trabalhos meticulosamente pensados, para que nada esqueça e tudo esteja pronto a horas, surgem as inspirações do acaso, animadas e estipuladas pela opinião pública, deleitando-se as pessoas no culto do armado no ar, do feito à pressa...
Chega o vício a tal ponto que até há quem faça o elogio de tais improvisações, supondo-as ingenuamente testemunhas de inteligências vivas e claras, quando em qualquer parte onde houvesse bom senso seriam apenas pura e simplesmente condenadas!
podeis ver, onde não existe investigação científica, a preguiça entronizada, com o atraso imperando e a rotina luzindo e, por cima de todas estas desgraças, o ensino a decair de dia para dia, as universidades enfraquecendo-se, o escol tornando-se raro e a juventude educando-se cada vez pior.
Esboçam-se actividades que não têm viabilidade; instalam-se indústrias onde não há matérias-primas necessárias ou erguem-se centros fabris dispendiosos em locais condenáveis, forjam-se organizações com vícios fundamentais que irremediavelmente elevarão até ao exagero os preços dos produtos manufacturados, estabelecem-se vias de comunicação por mera inspiração do acaso,sem plano de conjunto,nem visão do futuro ou da expansão económica da nação, criam-se pontos de drenagem de mercadorias quando elas não existem...persiste-se em manter a aparelhagem económica da nação em moldes atrasados, segundo princípios arcaicos, que são a negação das mais elementares normas de organização de trabalho.
Por cima de todos estes vícios teimam-se em viver num meio de actividades estagnadas, porque as que poderiam dar o arejamento necessário, criara e distribuir riqueza, que teriam êxito seguro dentro da economia geral, tardam em ser descobertas ou valorizadas.
Este quadro dramático que ora se descreve é afinal o quadro de todos os povos que, sem grandes recursos, utilizam uma técnica frouxa, contentando-se com a sua linguagem balbuciante. Isto é uma consequência certa, também, em toda a parte onde se abandona a técnica a si mesma, se não estimula, se não força o progresso, pelo único sistema que se conhece: desenvolvendo a investigação científica que deve apoiar ou orientar."
* António Câmara, 1949. Avô de António Câmara, prémio Pessoa 2006.
in o futuro inventa-se
Em 50 anos não aprendemos nada! Um país eternamente cheio de diagnósticos e zero de aprendizagens com os erros.
ResponderEliminarA única coisa que sabemos mudar é no Português (escrito) de resto um texto que bem podia ser de 2010.