Livro do Sapateiro
Numa tertúlia da Livraria Arquivo em Leiria trouxe um testemunho absolutamente inesperado. Um jovem , volumoso e com uma voz arrastada disse:
- Tenho passado a vida a ver televisão e o único livro que li foi a Bíblia…
Claro que nesta altura todos os presentes se viraram para trás, tentando localizar o jovem da voz arrastada. Ele continuou:
-O meu pai morreu o ano passado e tenho mais de mil livros em casa … ainda não li nenhum; passo da primeira página para a última porque quero ver o fim. Como se faz para gostar de ler um livro até ao fim?
O poeta e orador convidado Pedro Tamen respondeu:
- Passe para a página dois.
Fellini teria aqui um argumento para um filme fantástico.
Acabada a sessão , o jovem volumoso de voz arrastada , tinha o livro de poesia na mão para o autor assinar.
Não é ficção! Aconteceu mesmo.
Fiquei a cogitar neste episódio.
Há indícios cada vez mais consistentes de que o século XXI se poderá transformar na era das doenças mentais ou de instabilidade emocional como: a depressão e comportamentos de risco. Sabemos ainda tão pouco sobre o nosso cérebro apesar de sabermos cada vez mais. Contudo continuamos com interrogações: como actuar? Com que meios? Com que resultados no quotidiano de cada um?
Apesar destas perguntas , há uma que prevalece “ que dedicatória teria escrito Pedro Tamen naquele seu livro de poesia ” O Livro do Sapateiro?”
É incrível que alguém seja capaz de reconhecer em público algo assim... eu conheço muitos adultos que são assim, são os mesmos que só compram os jornais desportivos, ou as revistas cor de rosa.. e mesmo assim, só para ver as fotografias e ler as gordas e não me parece que seja um problema de século XXI, é um problema que se arrasta desde trás...
ResponderEliminarDe certeza que o Pedro Tamen escreveu a dedicatória na página 2
Bom fim de semana
Jorge Soares
Gostei !!!
ResponderEliminarNão pretendendo proveito próprio, quero deixar aqui um retrato de uma vivência na Escola Secundária de Porto de Mós, onde fui convidado por uma aluna do 10º. ano, para falar de livros e autores, no âmbito do mês das bibliotecas escolares. Foi fantástico como todos !! o(a)s participantes alunos (34), me receberam e ouviram falar de um livro (A crónica dos bons malandros) de "Mário Zambujal", autor escolhido por mim, para a referida tertúlia, passando o tempo disponível para a conversa a uma velocidade enorme.
Uma experiência que me deixou mais convictamente afirmativo de que estes nossos jovens só precisam de uma coisa, para se afirmarem em plenitude. Que nós os mais velhos saibamos ser respeitadores e transmissores de confiança e respeito pelas IDEIAS e EXPERIÊNCIAS de vida. Depois o tempo, saberá com o trabalho e conhecimento de cada um construir um mundo novo, em cada tempo que não será o nosso, mas o outro, sempre em mudança.
Por fim, li um dos meus últimos poemas que aqui vos deixo:
VISIONÁRIO
Diamantes claros,
são os teus olhos,
irradiando macia e ousada
onda de luminosidade ímpar.
Depois, quando te envolves
nos caminhos e ruas planas
despidas de sentido,
sinto a perda do farol
e receio a noite, sem a estrela maior.
É como a casa abrigo
que se transforma em fantasma
no mais vasto campo de silêncio
-Aquele, onde o teu corpo
se ergue de medo
por nada dar.
Também gostei deste do Pedro Tamen
ResponderEliminarNOÉ
Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
- o espaço que isso ocupa.
Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.
(Analogia e Dedos, 2006)
Boa tarde
ResponderEliminarPorque "O livro do sapateiro" era meu, o jovem amigo, volumoso e de voz arrastada foi o meio mais fácil de o fazer chegar às mãos de Pedro Tamen, uma vez que a cadeira de rodas dificultava o caminho. Afinal, e que me perdoe Pedro Tamen, o seu testemunho foi a dedicatória mais importante.Obrigada. Gostei do Fellini
Maria de Fátima Marques da Costa
GRANDE E VALENTE FÁTIMA!
EliminarObrigada pelo vosso testemunho. Quase poderiamso dizer : o que a vida mostra e o que ela esconde. E aconteceu poesia!!
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