Mais uma vez a Igreja

Este comentário do José Ferreira serviu de mote a este post. Quando terminei a leitura do que connosco partilhou disse para mim: touché!! isto merece ser esmiuçado. Aqui vai.


 


Aos olhos de hoje, Jesus foi um homem de esquerda, não apenas, mas também por ter defendido a igualdade entre os homens. Esta expressão, igualdade entre os homens, pode estar tão batida se tenha encolhido da plenitude do seu significado. Na época, em que a escravatura era algo banal, foi uma mensagem revolucionária e por isso os primeiros cristãos terão sido perseguidos pelos poderes instituídos.


Não quero alongar-me em detalhes históricos, até porque não sou historiador, mas ao longo dos séculos e no meio de muitos erros que a Igreja cometeu, especialmente pelo poder temporal que acabou por conseguir, a mensagem 'igualdade entre os homens' foi ficando e foi entrado, geração após geração, na cultura que agora chamamos de ocidental.


O modelo social europeu, as constituições democráticas e a essência da República, assentam na igualdade entre os homens.


É curioso notar que o iluminismo que combateu o poder temporal da Igreja e laicizou os estados, não destruiu a mensagem e, arrisco-me a dizer, até a reforçou. A 'igualdade entre os homens' alargou-se a quem professe outras religiões e dessa forma a tolerância religiosa tornou-se noutro fundamento do pensamento ocidental.


Após tudo isto não deixa de ser curioso observar a recusa de certos sectores da sociedade europeia em que houvesse qualquer referência à tradição judaico-cristã na matriz cultural da Europa no preâmbulo da Constituição Europeia, Constituição essa que acabou por nunca ter valor legal, mas isso já são contas de outro rosário. Entendo que a dita referência, a existir não beliscaria o carácter laico da União Europeia, e pelo contrário, negar influência judaico-cristã é negar a própria história.


Interpreto tudo isto numa dinâmica anti-clerical que está na moda neste início do sec. XXI. Senão vejamos.


Faço-vos um desafio.


Imaginemos que na próxima edição da Moda Lisboa, a organização preparava diversos desfiles para diferentes zonas da cidade e concentrava os desfiles de fatos de banho para a Rua Dr. Júlio Dantas. Tudo parece banal à excepção da referida rua servir a entrada principal da Mesquita de Lisboa.


Pergunto. Parece razoável? Numa cidade moderna do mundo ocidental, tolerante e laico, isto faz sentido?


Sinceramente acho de mau gosto e até instigador de um desnecessário choque cultural e religioso. Digo isto e não concordo de todo com a posição que o Islão manifesta em relação à exposição de corpos seminus ou mesmo quase nada nus, como é o caso das mulheres que não usam burkha ou véu islâmico.


Na mesma perspectiva acho de mau gosto a iniciativa que pela internet se propõe a angariar voluntários para nos 'dias em que o Papa vai estar em Portugal, conseguir o maior número possível de pessoas nos locais onde o Papa vai realizar as missas e distribuir preservativos e/ou folhetos informativos relativos à prevenção da SIDA pelo maior número de pessoas presentes nesses locais.'


Mais uma vez discordo da posição que a religião em causa manifesta sobre este assunto específico, desta vez a Igreja Católica e o tema preservativo, mas esta será apenas uma forma de fomentar momentos de tensão e de eventual violência que são desnecessários para a resolução do problema da SIDA e do controle da natalidade.


Mais uma vez vemos a Igreja debaixo de fogo. Põe-se a jeito é certo, mas numa sociedade mais esclarecida e tolerante, os cidadãos guardariam para si próprio as decisões da esfera pessoal e deixaria para a Igreja a metáfora do Padre António Vieira, que é o de pregar para os peixes.

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