Tempo: uma questão de tempo...
O tempo é bom conselheiro – diz-se! O tempo é umas vezes aliado, outras, inimigo. Ganha-se e perde-se! Muitas vezes é preciso ganhar tempo, que não significa exactamente ganhá-lo mas, antes, perdê-lo. Essa coisa estranha, paradoxal e absurda de empatar para ganhar, perdendo: empatar as coisas para ganhar tempo, que mais não é que perder tempo.
Vem isto a propósito daquilo que me parece corresponder à nova realidade política do país, agora que o PSD tem uma nova e renovada liderança, que galvanizou o partido, que introduziu alterações na agenda política e particularmente na mediática e que levou alguma esperança a muita gente. Que esperança? Isso é outra coisa! Mas que as coisas mexeram disso não há dúvidas…
Passados que foram os primeiros discursos para o interior do partido, passados que foram os primeiros dias que só davam Pedro Passos Coelho, assente a poeira, como se costuma dizer, tudo voltou à normalidade sem que, contudo, tudo tenha ficado na mesma. Desde logo porque a pressão sobre o primeiro-ministro dilui-se, consequência inequívoca de uma outra atitude do novo líder da oposição, quiçá de uma nova maneira de fazer oposição, aparentemente menos focada no caso, na exploração e na alimentação dos casos que animam os media e vice versa. E aqui não podemos deixar de salientar mais um dos muitos paradoxos que marcam a nossa vida política: a anterior liderança de Manuela Ferreira Leite, apresentada como o paradigma da seriedade, da austeridade e da responsabilidade, a antítese do populismo basista, enterrada até ao pescoço na exploração dos casos, uns atrás dos outros, e na sua propagação mediática; e é a nova liderança de Pedro Passos Coelho, sempre referenciada como populista, que se afasta desse registo e que se desinteressa (e faz desinteressar!) da exploração desses casos, enterrando-os na vala comum dos fait divers.
E tudo isto porquê? Pela tal questão de tempo!
A nova liderança do PSD sabe que o poder lhe cairá no colo. É uma questão de tempo! Mas é um tempo que tem que ser gerido. Desde logo pelo factor presidenciais: antes das eleições do início do próximo ano não pode acontecer nada. Mas também porque, estando a meio de um ano muito difícil, o próximo será terrível (como o seguinte, mas isso já seria ver muito à frente) e, por isso, pouco interessante para governar. Pedro Passos Coelho está, agora, muito mais interessado em ganhar tempo (em deixar passar tempo, que é perder tempo) do que em atacar o poder.
Mas também Sócrates, qual “millhafre ferido na asa”, como canta Rui Veloso, está interessado nisso. Também ele acha que é fundamental ganhar tempo, da mesma maneira - perdendo-o ao deixá-lo passar - para que possa sarar as feridas e voltar a poder voar alto.
Estando ambos de acordo nesta questão de tempo não admira que estejamos a sentir uma certa acalmia na nossa vida política. Que não sintamos um certo ambiente de paz política que nem as intervenções diárias de todos os antigos e actuais economistas chefes do FMI conseguem estragar.
Nesta questão de tempo o problema é mesmo essa ilusão de ganhar perdendo tempo. É que enquanto aqueles dois ganham tempo todos nós o perdemos!
GANHAR ...TEMPO é:
ResponderEliminarO caso das viagens da deputada Inês de Medeiros, eleita nas listas do PS por Lisboa, mas residente em Paris, dividiu hoje o Conselho de Administração (CA) do Parlamento.
Os representantes dos vários partidos votaram o parecer do auditor jurídico da Assembleia - um documento que defende o pagamento de uma viagem semanal à deputada, para se deslocar a casa, na capital francesa – mas a votação termino empatada. Isto porque o PSD (81 deputados) e o Bloco de Esquerda (16 deputados) votaram contra o parecer, enquanto o PS (97 deputados) se manifestou favorável e o CDS optou pela abstenção.
Com o PE e o PCP ausentes, sociais-democratas e bloquistas totalizavam 97 votos contra, exactamente o mesmo número de parlamentares socialistas. Consultado o regimento da Assembleia da República, o Conselho de Administração concluiu então que o presidente tem direito a voto de qualidade, pelo que o socialista José Lello desempatou a votação, que resultou assim num parecer favorável ao pagamento das viagens à deputada.
A posição do CA será agora transmitida ao presidente da Assembleia da República. No ofício que acompanhou o envio do parecer do auditor jurídico para o Conselho de Administração, Jaime Gama deu já acolhimento à tese de que a deputada Inês de Medeiros tem direito ao pagamentode uma deslocação semanal a Paris.
Este 'ganhar tempo' será uma contingência da política, mas de facto 'time is money' e cada dia que passa até que se inverta a tendência a situação agrava-se. Não sei que alternativa a oposição teria neste momento, até porque é sabido que em democracia não é a oposição que ganha o poder, mas é o poder que se deixa derrotar.
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